Saúde

Estudo propõe alternativa mais segura para reposição hormonal na menopausa

Experimento com ratas mostra que tratamento focado em apenas um receptor do estrogênio confere proteção metabólica sem risco de estimular tumores no útero e nas mamas


Maria Fernanda Ziegler, Agência Fapesp | 29/09/2026 | 01:00


Células do fígado vistas sob microscopia de fluorescência: à esquerda, células sadias; à direita, em amarelo, destacam-se gotículas de gordura. Pesquisa revelou que ativar o receptor ERβ induz o órgão a oxidar completamente esses lipídios para gerar | Foto: Débora Santos Rocha et al./Comprehensive Physiology

Menos pode ser mais, principalmente quando o assunto é equilibrar as alterações hormonais durante a transição para a menopausa. Foi o que demonstraram pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) ao testar uma estratégia alternativa à terapia convencional.

Em vez de repor o estrogênio como um todo, a equipe ativou nas células apenas um tipo de receptor desse hormônio, obtendo assim um efeito metabólico amplo e benéfico sem estimular o crescimento de tecidos reprodutivos –como o útero e as mamas–, algo importante para quem tem predisposição genética para o desenvolvimento de tumores.

“É uma estratégia mais pontual. Ao agir apenas nesse receptor, conseguimos reequilibrar os efeitos metabólicos da queda do estrogênio durante a menopausa sem afetar áreas possivelmente sensíveis do organismo”, explica a pesquisadora Débora Santos Rocha, bolsista de pós-doutorado da Fapesp no Instituto de Química (IQ-USP) e primeira autora do artigo publicado na revista Comprehensive Physiology.

O trabalho foi realizado em ratas que tiveram os ovários removidos para simular uma condição semelhante à menopausa. No modelo, os pesquisadores usaram uma droga experimental para ativar apenas o receptor de estrogênio beta (ERβ), um regulador importante para o metabolismo e que não estimula tecidos reprodutivos nem está associado ao risco de tumores sensíveis a hormônios.

Como explica Rocha, a queda expressiva do estrogênio durante a transição para a menopausa desorganiza todo o metabolismo, podendo favorecer o acúmulo de gordura visceral, a resistência à insulina e o risco cardiovascular. “Além da importância na reprodução, os estrogênios têm papel central na regulação energética. Quando seus níveis diminuem, surgem também alterações metabólicas amplas, que aumentam o risco de síndrome metabólica e doenças como diabetes e hipercolesterolemia [excesso de colesterol]”, afirma.

A terapia de reposição hormonal convencional tenta reequilibrar essa perda por meio de comprimidos, adesivos ou cremes com estrogênio e progesterona. No entanto, ao ativar todos os receptores de estrogênio de modo indiscriminado, pode-se elevar o risco de crescimento de tumores em mulheres predispostas. “Não é a reposição hormonal que causa o câncer. O que acontece é que se houver células tumorais em tecidos sensíveis ao estrogênio –como útero, mama e endométrio–, elas podem responder ao hormônio e se multiplicar mais rápido”, explica Rocha.

Solução pontual com benefícios amplos

Os resultados do estudo mostram que a ativação isolada do ERβ promoveu uma reprogramação metabólica profunda. “Com a nova abordagem, restauramos a glicemia de jejum, normalizamos o perfil lipídico e reduzimos o tamanho das células de gordura. As ilhotas pancreáticas [células que produzem insulina e outros hormônios] recuperaram sua forma normal e o sangue voltou a apresentar níveis saudáveis de colesterol, triglicerídeos e ácidos graxos livres. Tudo isso sem qualquer efeito sobre o útero, o que indica a segurança da abordagem”, comenta Alicia Kowaltowski, professora do IQ-USP e coordenadora da pesquisa.

O estudo teve o fígado como foco principal. Isso porque, na transição para a menopausa e na ausência de estrogênio, o órgão passa a lidar de forma diferente com as gorduras. “O metabolismo lipídico muda bastante e o fígado acumula mais gordura, o colesterol ‘ruim’ [LDL] no sangue aumenta e várias espécies lipídicas ficam alteradas. No entanto, com a ativação do ERβ, esses parâmetros voltaram ao normal”, conta Rocha.

O mesmo efeito foi observado na análise de células hepáticas isoladas. “A droga remodela o metabolismo de células do fígado [hepatócitos], fazendo com que oxidem mais os ácidos graxos [ou seja, “queimem” os blocos construtores de lipídios para gerar energia]. Isso reduz o acúmulo de gordura e melhora o perfil lipídico como um todo. Ao ativar essa via específica, modulamos o metabolismo do fígado e tornamos os lipídios circulantes mais saudáveis”, explica a pós-doutoranda.

Kowaltowski destaca outro achado importante do trabalho. “Ao ativar o ERβ, a droga faz com que as células hepáticas passem a oxidar totalmente os ácidos graxos, algo que normalmente não acontece, já que o fígado costuma fazer apenas uma oxidação parcial, gerando corpos cetônicos [fontes de energia alternativas que o corpo cria para compensar a falta de carboidratos]. Com essa ‘oxidação completa’, a gordura é totalmente convertida em CO₂, o que melhora de forma significativa o perfil lipídico do organismo. É importante saber que essa via pode ser ativada e trazer benefícios metabólicos, algo que não imaginávamos”, detalha.

Não existe modelo único

Embora o tratamento não tenha impedido o ganho de peso característico da menopausa, ele melhorou de forma ampla a qualidade do metabolismo e o funcionamento do fígado, do pâncreas e do sangue, contam as autoras no artigo.

“A menopausa é uma fase com grande variabilidade de sintomas entre as mulheres, o que torna importante haver também muitas abordagens terapêuticas. Se pudermos modular vias específicas, abrimos caminho para tratamentos mais personalizados. Talvez essa abordagem que apresentamos não venha a ser a ideal para uma determinada pessoa, mas seja decisiva para outra. O importante é ter opções de tratamento”, ressalta Kowaltowski.

As investigações continuam em um novo projeto financiado pela Fapesp, agora focado na transição para a menopausa (perimenopausa), usando um modelo experimental mais próximo da realidade humana.

Em vez da remoção abrupta dos ovários das ratas, o novo estudo utilizará um modelo de queda gradual da reserva ovariana, permitindo observar a dinâmica das mudanças hormonais ao longo do processo. “Queremos entender essa transição e identificar novos alvos terapêuticos que possam servir como alternativas à reposição hormonal convencional”, conclui Rocha.

O artigo Estrogen receptor beta activation coordinates liver lipid remodeling and metabolic fluxes, preventing lipotoxicity pode ser lido aqui.


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