Opinião

Opinião: Tarifaço, etanol e a urgência de uma política energética coerente

Leia artigo do empresário Maurilio Biagi Filho


Maurilio Biagi Filho*, especial para o B24h | 28/07/2026 | 05:30


O empresário Maurilio Biagi Filho | Foto: Lidia Muradás

O anúncio de um pacote de socorro às indústrias nacionais depois do anúncio do último tarifaço imposto pelos Estados Unidos demonstra que, quando necessário, o Estado brasileiro reconhece a importância de proteger setores estratégicos da economia. A iniciativa atende à necessidade de dar uma resposta política a uma medida externa que afeta as exportações nacionais.
 
Mas é difícil ignorar que, em um ano eleitoral, o impacto sobre a opinião pública tende a ser muito maior do que seus efeitos concretos sobre a economia. Recursos anunciados nem sempre significam recursos efetivamente acessados, e crédito subsidiado, por si só, não resolve problemas estruturais de competitividade.

Se existe tamanha disposição para reagir a uma ameaça externa, por que falta a mesma determinação para enfrentar os obstáculos internos que atingem um dos maiores ativos estratégicos do Brasil: o etanol? Por que subsidiar produtos importados e não fomentar o consumo de um produto 100% nacional, cujos estoques estão mais elevados do que o ano passado, quando a produção foi maior, com o menor preço de venda do produtor para os distribuidores dos últimos tempos?

Os números do mercado revelam um paradoxo preocupante. Mesmo com preços extremamente competitivos, o etanol não consegue ampliar sua participação no consumo. Em São Paulo, sua paridade com a gasolina gira em torno de 58% e, em diversas cidades do interior, chega a apenas 52%. Em qualquer mercado regido pela lógica econômica, seria natural esperar uma forte migração dos consumidores para o combustível renovável.

Mas isso não está acontecendo. Enquanto as vendas de gasolina continuam crescendo, as de etanol permanecem estagnadas ou até recuam. Trata-se de um comportamento que desafia a lógica econômica e evidencia que o problema deixou de ser apenas preço. Há distorções que precisam ser enfrentadas.

Parte desse cenário decorre das políticas adotadas nos últimos anos para conter o impacto da alta internacional do petróleo sobre os preços ao consumidor. Isenções tributárias, subsídios e outras medidas reduziram artificialmente a pressão sobre a gasolina e o diesel.

Foram decisões compreensíveis em um momento de inflação elevada, mas que produziram efeitos colaterais importantes: enfraqueceram a competitividade do combustível renovável justamente quando ele mais poderia contribuir para reduzir emissões, fortalecer a segurança energética e gerar renda no interior do país.

Ao mesmo tempo, o mercado externo também deixou de oferecer o alívio esperado. O cenário geopolítico levou muitos a acreditar que as exportações brasileiras de etanol cresceriam significativamente em 2026. Isso, porém, não ocorreu.

As vendas ao exterior seguem abaixo das registradas no ano passado, pressionadas pela concorrência internacional e pelo elevado custo do frete marítimo, que reduz a competitividade do produto brasileiro, especialmente nos mercados asiáticos.

Como se não bastassem esses desafios, o setor ainda enfrenta um ambiente de insegurança regulatória. A ação do Ministério Público Federal questionando a ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, de 30% para 32%, merece respeito sob o aspecto jurídico, mas também precisa considerar a ampla base técnica construída ao longo de décadas de desenvolvimento da engenharia automotiva brasileira.

O Brasil é referência mundial em motores flex e no uso de biocombustíveis. Qualquer debate sobre a evolução da mistura deve estar apoiado em evidências científicas, preservando a segurança dos consumidores, mas também evitando retrocessos em uma política pública que consolidou o país como líder global em mobilidade de baixo carbono. A discussão não pode ser conduzida de forma isolada. É preciso enxergar o conjunto da política energética.

O mais preocupante, porém, é que o setor sucroenergético parece assistir a tudo isso com uma passividade inquietante. Enquanto decisões políticas, tributárias e regulatórias reduzem sua competitividade, faltam unidade, articulação e capacidade de mobilização para defender um patrimônio construído ao longo de décadas. O etanol não pode depender apenas da eficiência de seus produtores; precisa também de uma representação forte e de uma agenda comum que dialogue com governos, Congresso e sociedade.

Se o governo considera estratégico preservar empresas brasileiras dos impactos de barreiras comerciais internacionais, também deveria assegurar condições para que o etanol dispute mercado em igualdade de condições dentro do próprio país.

Isso significa revisar incentivos que favorecem combustíveis fósseis, fortalecer a previsibilidade regulatória e reconhecer que o etanol representa muito mais do que uma alternativa energética. Ele reduz emissões, diminui a dependência do petróleo, aumenta a possibilidade de exportarmos ainda mais o nosso a preços excepcionais, gera empregos e agrega valor à agroindústria brasileira.

O Brasil possui uma vantagem competitiva que nenhum outro país consegue reproduzir na mesma escala. O verdadeiro risco não vem apenas das decisões tomadas em Washington ou de qualquer outra capital. Ele nasce, sobretudo, da incoerência das nossas próprias políticas públicas e da incapacidade de transformar consenso técnico em ação política.

Se há disposição para anunciar bilhões em resposta a uma crise externa, também deveria haver coragem para eliminar as barreiras internas que impedem o avanço de um combustível genuinamente brasileiro. Caso contrário, continuaremos reagindo aos problemas criados pelos outros enquanto negligenciamos aqueles que nós mesmos insistimos em preservar.

E o setor sucroenergético precisa decidir se continuará apenas assistindo a esse processo ou se voltará a atuar de forma unida para recolocar o etanol no centro da estratégia energética nacional. É preciso urgentemente mostrar, de maneira coordenada, conjunta e estratégica, as vantagens do etanol com clareza, derrubando mitos e devolvendo o protagonismo que ele merece, afinal, o nosso etanol não passa pelo estreito de Ormuz.

 

(*) Maurilio Biagi Filho é empresário


COMENTÁRIOS

Mais Lidas no mês


Gente

Morre Carlos Roberto Alliprandini, o Carlos do Quintal, empresário que marcou a noite e a vida social de Batatais

Aos 65 anos, Carlos deixa uma história de empreendedorismo, amizade e encontros. Proprietário de alguns dos bares e estabelecimentos mais conhecidos da cidade, tornou-se sinônimo de quem sabia receber, trabalhar e fazer a noite acontecer

Batatais

Acidente entre dois caminhões deixa motorista ferido na Altino Arantes

Vítima de 34 anos precisou ser estabilizada por bombeiros

Batatais

Tempo seco faz incêndios dispararem em Batatais

Em apenas dois meses, total de focos combatidos cresceu 78,2% na cidade

Batatais

Defesa Civil emite alerta climático severo para chuvas em Batatais

Instabilidades devem provocar pancadas moderadas a fortes, com possibilidade de raios, rajadas de vento e granizo isolado

Mais sobre Opinião

Opinião

Opinião: Dez anos depois, Ribeirão ainda espera uma resposta

Leia artigo do empresário Maurilio Biagi Filho sobre a Operação Sevandija

Opinião

Opinião: Lei Seca, da maioridade à maturidade

Leia novo artigo de Dimas Ramalho, vice-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo

Opinião

Opinião: O avanço e o abismo

Leia novo artigo de Dimas Ramalho, vice-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo

Opinião

Opinião: Tarifaço, etanol e a urgência de uma política energética coerente

Leia artigo do empresário Maurilio Biagi Filho



Copyright © 2026 - BATATAIS 24h | Todos os direitos reservados.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo em qualquer meio de comunicação sem prévia autorização.



Byte Livre