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Áreas úmidas do Cerrado guardam carbono milenar cuja liberação pode agravar a crise climática

Cientistas alertam que as emissões dessas áreas são atualmente 'invisíveis' nos cálculos oficiais e podem inviabilizar o cumprimento das metas de redução de gases de efeito estufa


Agência Bori | 12/03/2026 | 11:00


Estudo mapeou solos alagados do Cerrado até quatro metros de profundidade | Foto: Guilherme Alencar

Um novo estudo brasileiro, publicado nesta sexta-feira (13) na revista New Phytologist, revela que áreas úmidas do Cerrado guardam depósitos gigantescos de carbono orgânico no solo, acumulados ao longo de dezenas de milhares de anos. A pesquisa, que é destaque na capa do periódico científico, foi conduzida por cientistas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“Nós mapeamos a área por até quatro metros de profundidade, e a quantidade de carbono que encontramos estocada no solo é gigantesca. O fato de os extremos do cerrado estarem sob um clima mais sazonal e seco faz com que ninguém esperasse a existência desses grandes depósitos abaixo do solo”, explica Rafael Oliveira, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e um dos autores da pesquisa.

O mecanismo que torna essas veredas e campos úmidos, conhecidos como turfeiras tropicais, em grandes cofres de carbono é a própria água. O solo constantemente alagado não deixa espaço nos poros para o oxigênio. Sem oxigênio, as bactérias aeróbicas responsáveis por decompor a matéria orgânica (folhas, raízes e plantas mortas) não conseguem sobreviver, preservando o material intacto por milênios.

“A partir do momento que drenamos a água para a agricultura, nós permitimos que o oxigênio penetre nos poros do solo. As bactérias decompositoras conseguem se estabelecer novamente, e para elas é um grande banquete de matéria orgânica. Isso acelera drasticamente a decomposição”, detalha a pesquisadora Larissa Verona, primeira autora do artigo.

Quando a terra seca e as bactérias entram em ação, ocorrem a liberação acelerada de dióxido de carbono (CO2) e o aumento das emissões de metano, um gás com potencial de efeito estufa 28 vezes maior. O processo reverte o papel da natureza: o que era um sumidouro passa a ser um grande emissor.

“É como se abríssemos uma garrafa com um potencial de carbono que estava ali acumulado por tanto tempo, liberando de maneira muito mais rápida. Quando pensamos nas metas climáticas do Brasil, nós estamos ignorando completamente como a degradação afeta esse carbono estocado”, alerta Verona.

Além da questão climática, o estudo reforça como essas áreas servem também como infraestrutura natural para a manutenção dos recursos hídricos.

“Se essas áreas de solos orgânicos do cerrado forem drenadas, como tem acontecido, o Brasil pode liberar um volume muito maior e adicional de carbono, o que vai dificultar muito o cumprimento de suas metas de redução de emissões. Proteger as áreas úmidas é uma questão estratégica muito concreta para evitar emissões em grande escala e, ao mesmo tempo, proteger a segurança hídrica do país”, ressalta Rafael Oliveira.

A preservação desse ecossistema vital esbarra em um desafio de gestão territorial. Proteger apenas o perímetro imediato das veredas é insuficiente se as atividades do entorno continuarem secando o lençol freático, como ocorre com o uso intensivo de pivôs centrais de irrigação. Para garantir que essa “bomba-relógio” de carbono não dispare, os especialistas recomendam o reconhecimento imediato dessas áreas como de proteção permanente e a urgência de um manejo hídrico integrado focado na escala das bacias hidrográficas.


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