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Negros têm risco 49% maior de morte violenta no Brasil, mesmo em condições sociais idênticas aos brancos

Estudo da USP Ribeirão mostra que, predominantemente, homens jovens, solteiros e com baixo nível de escolaridade são vítimas


Agência Bori | 08/03/2026 | 00:30


Hotspots de homicídios no Brasil evidenciam desigualdades regionais | Foto: Imagem gerada com IA

Um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva revela que a população negra no Brasil tem probabilidade 49% maior de ser vítima de homicídio em comparação à população branca. O achado mais importante dessa pesquisa é que a cor da pele atua como um fator de risco independente, o que significa que esse viés persiste mesmo quando se comparam indivíduos com as mesmas características de escolaridade, idade, sexo e local de moradia. 

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores adotaram uma abordagem metodológica que integrou técnicas geoestatísticas com um método chamado “escore de propensão” — técnica utilizada para equilibrar grupos de comparação em estudos em que não é possível realizar um experimento controlado (como um ensaio clínico).

Utilizando dados secundários do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde e do Censo 2022, o estudo identificou aglomerados de municípios com altas taxas de criminalidade (os chamados hot spots) e baixas taxas (cold spots). Depois, aplicou-se o escore de propensão para equilibrar os grupos de comparação, permitindo que indivíduos brancos e negros fossem analisados sob condições sociais e demográficas idênticas, isolando o efeito da raça no desfecho de morte violenta.

A pesquisa confirmou uma acentuada disparidade regional, apontando o Nordeste como a região mais afetada por altas taxas de homicídio, enquanto partes do Sul e Sudeste concentram os municípios com menores índices. O perfil das vítimas no Brasil permanece predominantemente composto por homens jovens, solteiros e com baixa escolaridade formal. 

Os resultados dessa pesquisa trazem contribuições significativas tanto para a gestão pública quanto para a compreensão estatística do racismo no Brasil, ao isolar a raça como um fator de risco determinante.

Com “onde” e “quem” definidos, o que pode vir de prático é uma ação mais assertiva do Estado, segundo Rildo Pinto da Silva, pesquisador brasileiro vinculado à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e um dos autores do estudo.

“Essa visão multidisciplinar visa aprimorar as políticas públicas, permitindo que o Estado direcione recursos de forma mais precisa e técnica para as regiões e populações onde a seletividade racial e a violência são mais críticas”, diz. “Pelo critério metodológico utilizado, a gente consegue afirmar com mais segurança sobre as especificidades desses dados. Se os recursos são escassos, então que sejam devidamente direcionados para onde são mais efetivos, e agora há critérios mais técnicos para essa avaliação”, afirma.

Os achados permitem que a população afetada tenha ferramentas para cobrar ações dos entes públicos. No longo prazo, Silva diz esperar que a precisão técnica deste trabalho resulte em um ambiente onde as pessoas, especialmente homens jovens e negros, possam circular sem o medo constante de sofrer uma morte violenta.


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