Saúde

Exergames ampliam engajamento e melhoram habilidades motoras de crianças com TEA

Pesquisa da USP Ribeirão mostra que jogos interativos aumentam o nível da atividade motora, estimulam coordenação e podem complementar terapias


Felipe Medeiros*, Jornal da USP | 07/03/2026 | 14:00


Jogos eletrônicos que dependem de movimentos corporais surgem como alternativa terapêutica | Foto: Sergey Galyonkin/Raleigh/Wikimédia

Crianças no Transtorno do Espectro Autista (TEA) costumam enfrentar desafios motores, sensoriais e comportamentais que dificultam a prática regular de atividade física. Muitas realizam menos movimento do que o recomendado, encontram barreiras em esportes tradicionais e apresentam menor afinidade com atividades que exigem coordenação complexa. Nesse cenário, os exergames – jogos eletrônicos que dependem de movimentos corporais – surgem como uma alternativa a essas necessidades individuais.

Foi a partir dessa realidade que o fisioterapeuta Natã Rafael Grola, doutorando da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP, que trabalhou sobre orientação do professor Hugo Tourinho Filho, decidiu investigar como crianças com TEA respondem fisiológica e comportamentalmente a esse tipo de atividade. Segundo ele, “dentre os recursos terapêuticos atualmente oferecidos no mercado, os consoles de exergames são opções mais acessíveis financeiramente, sendo uma alternativa para clínicas, centros de reabilitação ou até mesmo em um contexto de atividade física domiciliar”. 

Como parte das crianças atendidas apresenta longos períodos de exposição às telas, “achei que seria uma boa oportunidade unir atividade física e realidade virtual e avaliar se isso seria interessante para as pessoas com TEA, suas famílias e a comunidade”, afirma o pesquisador.

Ações coordenadas

No estudo, nove crianças de 7 a 10 anos diagnosticadas com TEA foram acompanhadas pela equipe, após uma “seleção desafiadora”. Grola conta que era necessário que as crianças conseguissem reproduzir os gestos do teste motor adotado na pesquisa para que fosse possível comparar os resultados antes e depois da intervenção. “Os participantes deveriam imitar o aplicador que ensinava todos os gestos exigidos pelo teste, o que não foi possível com todos os casos, e estes fatores implicaram a escolha dos nove indivíduos, dentre os 25 selecionados.”

Para caracterizar o perfil comportamental e motor das crianças, dois instrumentos validados no Brasil foram utilizados. O CARS (sigla do inglês Childhood Autism Rating Scale – escala de avaliação do autismo na infância) colaborou  com a identificação de prejuízos individuais das crianças diagnosticadas com TEA a partir das respostas dos responsáveis. Já o TGMD-2 (Test of Gross Motor Development, Second Edition – teste de desenvolvimento motor amplo, como correr, pular e chutar) examinou habilidades de locomoção e controle de objetos, permitindo identificar atrasos motores e compreender como essas particularidades poderiam influenciar o desempenho nos jogos.

A estrutura da intervenção foi planejada com base em protocolos já descritos na literatura e adaptada à rotina das crianças atendidas. Os jogos selecionados exigiam movimentos amplos, como saltos, deslocamentos e ações coordenadas dos membros superiores e inferiores. A equipe manteve sempre o mesmo conjunto de cinco modalidades (jogos utilizados na pesquisa), favorecendo a aprendizagem e a familiaridade com as tarefas.

A definição da frequência semanal e do tempo das sessões também precisou considerar aspectos comportamentais. “Fatores como tempo de engajamento dos participantes nos jogos e frequência semanal com que iam à instituição onde foram coletados os dados”, informa o pesquisador.

Melhora motora e engajamento

As crianças participantes demonstraram afinidade com os jogos, conseguiram permanecer interessadas e se divertiram ao longo das sessões. Segundo o doutorando, “isso é fundamental, uma vez que oferecer terapias motivadoras e reforçadoras se tornam pilares essenciais em um contexto terapêutico de habilitação de funções de vida diária, do brincar na infância e para a promoção do aprendizado motor”. 

O pesquisador acrescenta que jogos de estrutura simples e previsível foram os que geraram melhor resposta, indicando que clareza e repetição são fatores importantes para esse público. “As crianças tinham limites diferentes quanto à execução e tempo de engajamento, mas em geral conseguiam se divertir e realizar o que era proposto durante o período que estavam em sala jogando.”

Após a intervenção, o estudo encontrou melhora significativa nas habilidades de locomoção, no controle de objetos e no quociente de motricidade grossa. Para Grola, um dos pontos centrais foi observar como fatores individuais influenciaram esse progresso. “As menores pontuações no CARS, isto é, participantes com menores prejuízos, desempenharam melhor o que estava na proposta dos jogos”, diz. Em um contexto geral, esses mesmos participantes também apresentaram maior evolução no TGMD-2 após a intervenção.

O pesquisador relata ainda que variáveis como alfabetização, compreensão das instruções e frequência de comparecimento no protocolo tiveram impacto direto nos resultados. “Os participantes que eram alfabetizados tinham melhor compreensão do que era exigido nos jogos.” Mesmo assim, afirma que crianças com maior nível de comprometimento também participaram ativamente, reforçando o potencial inclusivo da proposta.

Potencial terapêutico dos exergames

Entre as limitações metodológicas, o doutorando destaca o tamanho reduzido da amostra, a ausência de meninas e a falta de informações sobre o nível de suporte no diagnóstico clínico. “Acredito que com um grupo maior de participantes, inferências mais assertivas poderiam ser feitas.” Além disso, ele ressalta que o espectro autista é heterogêneo, o que gera desafios para estabelecer critérios de inclusão e exclusão que possibilitem pesquisar um grupo maior ou até mesmo generalizar resultados.

Segundo o pesquisador, os próximos passos do estudo devem incluir ampliação do grupo de intervenção e controle de variáveis como nível de suporte, perfil sensorial e frequência de participação. “Precisamos ter resultados que nos tragam mais respostas sobre os impactos da intervenção com exergames sobre as funções motoras das pessoas com TEA”, aponta.

Apesar das respostas positivas, Grola afirma que os exergames não substituem terapias convencionais, mas adicionam um recurso valioso ao repertório de profissionais que atendem a crianças com TEA. “Precisamos ter recursos alternativos, que possam servir como apoio para os terapeutas que estão na ponta do trabalho com este público e família.” Para ele, o caráter motivador dos jogos, aliado ao estímulo motor constante, pode ajudar a reduzir barreiras à atividade física e ampliar o acesso a práticas motoras em ambientes clínicos, escolares e domiciliares.

 

(*) Estagiário sob supervisão de Rita Stella


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