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Produção científica feminina cresce no Brasil, mas mulheres ainda têm pouca influência em políticas públicas

Pesquisadoras são maioria em enfermagem e psicologia, mas minoria em áreas como matemática e computação


Agência Bori | 08/03/2026 | 22:32


Dados de 2002 a 2022 ajudam a discutir equidade na ciência no Dia da Mulher | Foto: Yaroslav Shuraev/Pexels

A busca pela equidade de gênero na pesquisa científica tem avançado, mas a presença de mulheres entre os cientistas de maior impacto nas tomadas de decisões públicas ainda é baixa. É o que mostra relatório da Elsevier, publicado pela Bori, que analisa a atuação feminina na pesquisa científica no período de 2002 a 2022.

Segundo o levantamento, o percentual de mulheres entre autores de publicações científicas no país passou de 38%, em 2002, para 49%, em 2022. Quando esses textos se referem às chamadas STEM — pesquisas sobre ciência, tecnologia, engenharia e matemática —, os dados vão de 35%, em 2002, para 45%, em 2022.

Outro destaque do estudo, que considera apenas o gênero binário — homens e mulheres —, é que o Brasil está entre os três países com maior representação feminina entre 18 nações analisadas, além da União Europeia. Com 49% de autoras, o país fica atrás apenas de Argentina e Portugal (52%).

Ao mesmo tempo, outro relatório recente aponta que o impacto das pesquisas feitas por mulheres está longe de se equiparar ao dos homens. De 107 pesquisadores brasileiros cujos estudos foram citados e analisados por governos, entes públicos e organizações internacionais, apenas 23 são mulheres (21,5% do total), segundo relatório da plataforma Overton, que analisa a influência da ciência sobre políticas públicas, em parceria com a Bori.

Entre os cinco cientistas mais influentes em tomadas de decisão, todos são homens: Cesar G. Victora, da Universidade Federal de Pelotas; Carlos Monteiro, da Universidade de São Paulo; Aluísio Barros, da Universidade Federal de Pelotas; Paulo Saldiva, da USP; e Pedro Hallal, também da Universidade Federal de Pelotas.

Uma das 23 mulheres citadas no relatório Bori-Overton, a imunologista Ester Sabino, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, afirma que fatores culturais afastam as mulheres da liderança nas carreiras científicas. Ela, que liderou o grupo de pesquisadores que detalhou o sequenciamento genético do coronavírus no Brasil durante a pandemia de Covid-19, considera que a dupla e até tripla jornada da mulher é um desafio. “A mulher trabalha bem mais. Além da carreira, se dedica à maternidade e aos cuidados com os pais mais velhos. Esses fatores recaem muito mais sobre a mulher do que o homem e tiram delas um tempo precioso, principalmente no início da carreira”, afirma.

Além disso, a professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo diz que é preciso vencer crenças que limitam a atuação das mulheres nas pesquisas.. “Esse ponto é da própria mulher, de não se arriscar em pesquisas nem buscar coordenar atividades. As mulheres são mais conservadoras nos seus projetos e isso é uma questão cultural que você nem percebe que pensa dessa forma”, diz Sabino.

Isso se reflete na opção das áreas de pesquisas lideradas por mulheres. Segundo o relatório da Elsevier, a participação feminina supera 60% nas áreas de enfermagem (80%), farmacologia, toxicologia e farmacêutica (62%) e psicologia (61%). O mesmo não é visto em áreas como matemática (19%), ciência da computação (21%) e astronomia (27%), que têm baixa adesão das pesquisadoras.

Carolina Brito, física e professora do Instituto de Física da UFRGS, afirma que um desafio é dar conta da carga de tarefas que decorrem do fato de haver poucas mulheres nas ciências exatas. “Como somos poucas, as mulheres acabam sendo muito demandadas para participar de bancas, comissões, avaliações e outras atividades institucionais importantes e que agora têm um certo olhar para a diversidade. Embora necessárias, essas atividades consomem muito tempo e nem sempre têm o mesmo peso na avaliação da carreira que a produção científica, o que pode dificultar ainda mais a progressão profissional.”

Ela afirma que há um movimento feminista na física, que contou com a liderança de pesquisadoras como Márcia Barbosa e Elisa Saitovitch, entre outras, e que produziu diversos levantamentos sobre
desigualdade de gênero. “Lembro de um estudo, por volta de 2010, mostrando que mulheres na física com bolsa nível 2 do CNPq tinham, em média, o dobro de publicações em comparação aos homens, mas mesmo assim permaneciam represadas nos níveis da carreira. Quando esses dados foram apresentados, o Comitê Assessor do CNPq passou a reconhecer o problema e promoveu mudanças que ajudaram a corrigir essa distorção”, diz.

Quando o assunto é a repercussão em políticas públicas que possam retornar à sociedade em forma de serviços e direitos garantidos, Sabino volta a enfatizar a importância de decisões mais arrojadas por parte das cientistas e da ampliação de oportunidades para que elas liderem projetos de grande impacto.

A ONU Mulheres destaca que, embora haja desafios mundiais em relação à equidade de gênero, o Brasil está alinhado com as demandas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para inclusão de meninas e mulheres na ciência. E o foco este ano será voltado à inclusão digital, especialmente em comunidades vulneráveis.

Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil, destaca o projeto Mulher+Tech, uma parceria da entidade, com a iniciativa privada e o governo. “Ele será implementado em 2026, para capacitar e incluir digitalmente mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade”, afirma.

Veja a lista completa das 23 cientistas mais citadas em documentos relacionados a tomadas de decisão, segundo o relatório Bori-Overton:

1. Agnieszka E Latawiec – PUC-RJ
2. Ane Alencar – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia
3. Beatriz Grinsztejn – Fiocruz
4. Blandina Felipe Viana – Universidade Federal da Bahia
5. Deborah Carvalho Malta – Universidade Federal de Minas Gerais
6. Éster Cerdeira Sabino – Universidade de São Paulo
7. Fernanda Rauber – Universidade de São Paulo
8. Flávia Ribeiro Machado – Unifesp
9. Giselda Durigan – Instituto Florestal
10. Gulnar Azevedo e Silva – Universidade Estadual do Rio de Janeiro
11. Ima Célia Guimarães Vieira – Museu Paraense Emílio Goeldi
12. Juliana Hipólito – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia / Universidade Federal da Bahia
13. Liana O Anderson – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais
14. Ludhmila Abrahão Hajjar – Universidade de São Paulo
15. Maria Laura da Costa Louzada – Universidade de São Paulo
16. Mercedes Bustamante – Universidade de Brasília
17. Micheline de Sousa Zanotti Stagliorio Coêlho – Universidade de São Paulo
18. Neha Khandpur – Universidade de São Paulo
19. Patrícia Constante Jaime – Universidade de São Paulo
20. Renata Bertazzi Levy – Universidade de São Paulo
21. Valdiléa G Veloso – Fiocruz
22. Viviane Cordeiro Veiga – Beneficência Portuguesa de São Paulo
23. Waleska Teixeira Caiaffa – Universidade Federal de Minas Gerais


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