Nacional

A pós-graduação brasileira em busca de identidade

Programas sofrem queda no total de ingressantes; entre as propostas estão a necessidade de torná-los mais flexíveis, rápidos e com conteúdo mais moderno


Maria Fernanda Ziegler, Agência Fapesp | 01/03/2025 | 23:30


Entre 2019 e 2022, o total de indivíduos que ingressaram nos programas de mestrado e doutorado no Brasil caiu 12% | Foto: Léo Ramos Chaves/Pesquisa Fapesp

A pós-graduação brasileira está passando por uma grande reformulação. Além da necessidade de reduzir desigualdades regionais quanto à formação de professores, há a demanda de tornar os programas mais flexíveis, rápidos, com conteúdo moderno e mais próximos da sociedade. A mudança visa também estancar uma crise: a redução do interesse e do número de alunos nas pós-graduações do país.

No âmbito estadual, as universidades públicas paulistas e a Fapesp estão unindo forças para implementar transformações que possibilitem uma pós-graduação mais atrativa, diversificada e compatível com as demandas sociais. Em nível nacional, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem desenvolvido, desde 2022, o novo Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG).

A crise de identidade e as mudanças em curso foram objeto de debate no seminário "As transformações esperadas na pós-graduação brasileira", realizado em 20 de fevereiro no auditório da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP).

“Há anos ouço um discurso padronizado sobre as qualidades da pós-graduação brasileira. O quanto ela cresceu, o quanto descentralizou a ciência brasileira e o quanto a crescente produção científica do país depende da pós-graduação – isso até recentemente, pois nos últimos anos a produção começou a cair. Eu peço licença para discordar de muitas dessas afirmações ou, pelo menos, reconhecer que, em grande parte, elas têm fundamento frágil”, afirmou Marco Antonio Zago, presidente da Fapesp.

Embora tenha caído, a concentração de docentes no país persiste nas regiões Sul e Sudeste, avaliou Zago. “A época do crescimento contínuo e ilimitado das pós-graduações terminou e há vários motivos para isto. E o argumento recorrente de que temos de formar mais doutores não resolve o nosso problema. Além do mais, não é aceitável que a idade média para completar o doutorado no Brasil seja de 38 anos [dez anos a mais que a média europeia]. Se não tomarmos medidas para mudar isso, não mudaremos o panorama do país.”

Segundo o presidente da Fapesp, é preciso atrair os jovens para o meio acadêmico, por exemplo, por meio de bolsas e outros mecanismos que permitam aos pós-graduandos uma vida digna e direitos previdenciários.

Zago afirmou ainda que, em meio à atual crise de identidade, é importante ter em mente que a pós-graduação “serve para o treinamento no método científico de questionamento e de busca por respostas a problemas concretos das diferentes áreas do conhecimento”. E continuou: “A meu ver, não é possível trabalhar no atacado. Não é admissível que um orientador não dedique tempo regularmente para discussão, planejamento, análise e resultados com o seu orientado, individualmente. A pós-graduação é um programa individual e não reprodutível. O restante, a meu ver, é perda de tempo”, concluiu.

Para Ésper Cavalheiro, assessor da Fapesp e coordenador do Plano Nacional de Pós-Graduação, o desenho dos programas no país transformou a defesa da tese ou a escrita da dissertação no objetivo final da pós-graduação, quando o objetivo deveria ser tornar o indivíduo um cientista. “A tese é uma consequência, é o instrumento para esse indivíduo se modificar", ponderou.

"A maioria das políticas públicas no Brasil não está baseada na produção científica do país. Portanto, é como se tivéssemos mundos à parte. Dessa forma, o mais importante do programa foi recolocar o pós-graduando no centro da pós-graduação de novo", acrescentou.

Cavalheiro acredita ser necessário trazer gente jovem para a pós-graduação para que o pensamento no país mude. “Ao centrar os resultados na produção de papers e no tempo [do curso], o pós-graduando se tornou uma mão de obra extra do orientador, um tarefeiro. Mas não era para ser assim. O pós-graduando é um indivíduo que tem o papel de ver o mundo de forma diferente daquela que o orientador vê, sem reproduzi-la. Triste o país que se repete de geração em geração."

Entre as manifestações dos participantes do evento, a necessidade de a pós-graduação se aproximar dos problemas da sociedade foi uma unanimidade. “Temos de fazer mais, reordenar agendas e buscar aprofundar essas agendas em conexão, por exemplo, com as regiões brasileiras, em conexão com a superação de assimetrias. É preciso lutar contra esse ritmo tortuoso de desenvolvimento brasileiro. O PIB da indústria só cai. Sem indústria, sem essa inovação, o país não se moderniza, a cultura fica limitada, a perspectiva de relacionamento entre as pessoas – sem emprego ativo e permanente – se compromete”, argumentou o sociólogo Luiz Roberto Liza Curi, titular da Cátedra Paschoal Senise de Pós-Graduação (USP), que organizou o seminário.

Já o reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, defendeu a necessidade de um modelo dinâmico, em que o aluno tenha a percepção de que a pós-graduação pode mudar sua carreira. "O jovem não está mais se interessando pela pós-graduação e não é ele que está errado. O que precisamos, portanto, é de um modelo dinâmico, que faça o jovem perceber que a pós-graduação não apenas possibilita se tornar professor, mas pode acrescentar muito na carreira profissional. Trata-se de uma melhoria da qualidade da profissão, da vontade de ser um empreendedor e também da vontade de fazer alguma descoberta que seja relevante para a sociedade."

Em declínio

Entre 2019 e 2022, o número de indivíduos que ingressaram nos programas de mestrado e doutorado no Brasil caiu 12%, atingindo o nível mais baixo em quase uma década. A Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP tem realizado uma investigação sobre as novas necessidades para que os programas tenham uma atuação mais voltada a questões de interesse da sociedade e à formação de qualidade de mestres e doutores.

Entre os problemas investigados estão a pouca conexão com a sociedade e a indústria, a longa duração do processo de conclusão do mestrado e doutorado (apenas dois terços dos mestres finalizam o doutoramento) e a baixa empregabilidade após a formação.

“Até 2024 tivemos um chacoalhar da nossa pós-graduação, que entrou num processo de crise de identidade e da necessidade de refletir seus objetivos. Na USP, fizemos uma investigação e diagnóstico, tentando apresentar algumas soluções. O que passamos hoje não é novo, nem é único. Já aconteceu em outros locais. Portanto, precisamos aprender com as experiências e propor objetivos mais amplos”, afirmou Rodrigo Calado, pró-reitor de Pós-Graduação da USP.

Entre os motivos do desinteresse na pós-graduação, segundo Calado, está a dificuldade de inserção profissional. “Apesar do êxito que tivemos com o crescimento da pós-graduação e a criação de novos grupos de pesquisa no país, chegamos ao estágio de saturação. E o destino dos egressos de mestrado e doutorado precisa ser repensado, pois eles não estão sendo absorvidos com a mesma intensidade do passado”, afirmou.

Como explicou o pró-reitor, a proposta para o novo modelo de pós-graduação defende que, nos primeiros 12 meses da pós-graduação, o aluno frequente disciplinas da matriz curricular do curso, formativas e interdisciplinares, construa um projeto de pesquisa e identifique um orientador.

Os programas também deverão oferecer modelos formativos ligados à inovação, ao empreendedorismo, à inserção social e às atividades industriais ou públicas, com atuação direta em empresas ou órgãos estatais.

Ao final desta primeira etapa do mestrado, os estudantes submetem-se ao exame de qualificação para verificar a aquisição de conhecimentos e a avaliação do projeto de pesquisa. Se aprovados no exame, terão duas possibilidades: prosseguir no mestrado para concluí-lo em mais um ano ou converter o mestrado em doutorado, que deverá ser concluído em até quatro anos.

Também participaram do seminário: Antonio Gomes, diretor de avaliação da Capes; Maria Arminda do Nascimento Arruda, vice-reitora da USP; e Paulo Henrique Rodrigues Pereira, secretário-executivo do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável.

O evento pode assistido clicando aqui.


COMENTÁRIOS

Mais Lidas no mês


Batatais

Carro cai em lago artificial de Batatais na noite do feriado

Dois jovens estavam no veículo, mas saíram ilesos e recusaram atendimento médico

Gente

Morre aos 72 anos o jornalista Júlio César Bianco, voz influente da imprensa em Batatais

Colunista de estilo crítico e trajetória marcante, ele construiu carreira sólida no jornalismo local

Turismo e Eventos

Ribeirão Rodeo Music 2026 retoma programação com grandes shows neste sábado

Evento reúne Wesley Safadão, Panda, Matogrosso & Mathias e Natanzinho Lima em noite que promete agitar o público no Parque Permanente de Exposições

Batatais

Batatais promove evento gratuito sobre vendas digitais com Shein e Mercado Livre

Encontro acontecerá no dia 21, às 19h, no Teatro Municipal Fausto Bellini Degani

Mais sobre Nacional

Nacional

Técnicas de identificação de gêmeos são insuficientes para diferenciar irmãos idênticos, diz estudo

Pesquisa aplicou três métodos para identificação de rostos de gêmeos e nenhuma foi suficiente para distinguir irmãos

Nacional

Liderança ética e percepção de risco são fatores relevantes contra corrupção no serviço público, diz estudo

Pesquisadores aplicaram questionário a 529 funcionários públicos brasileiros sobre motivações que levam à corrupção

Nacional

Bitucas de cigarro são o lixo mais comum do planeta, com 4,5 trilhões de unidades descartadas por ano

Estudo de revisão compila dados científicos de 55 países e revela níveis alarmantes de contaminação em ambientes urbanos e aquáticos

Nacional

Genoma da temida jararaca-ilhoa revela como evoluíram genes responsáveis pelas toxinas do veneno

Sequenciamento é um dos mais completos feitos em serpentes no mundo e serve como referência para todas as jararacas



Copyright © 2026 - BATATAIS 24h | Todos os direitos reservados.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo em qualquer meio de comunicação sem prévia autorização.



Byte Livre