Pesquisadores aplicaram questionário a 529 funcionários públicos brasileiros sobre motivações que levam à corrupção
A corrupção é um fenômeno complexo e multifacetado. Para entender como ela opera, um grupo de pesquisadores da Universidades Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) avaliou quais são os fatores individuais e organizacionais que influenciam mais ou menos o comportamento corrupto entre os servidores públicos brasileiros.
Em um artigo publicado no periódico Revista de Administração Pública, os cientistas mostram que ter um exemplo de liderança ética é um dos principais elementos para fortalecer o ambiente institucional contra desvios, além da percepção de risco sobre o ato de corrupção pelo servidor e a satisfação com benefícios. Em contrapartida, a falta de autocontrole foi apontada como principal determinante individual para que o sujeito ignore seus próprios padrões morais.
Segundo a pesquisa, a corrupção não ocorre apenas por falhas pessoais ou por falhas do sistema, mas pela combinação de fragilidades individuais inseridas em um contexto organizacional específico. Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores aplicaram um questionário a 529 funcionários públicos de duas instituições federais brasileiras, ambas consideradas referências no combate à corrupção no Brasil.
“Buscamos servidores que vivenciam o combate à corrupção no dia a dia por terem maior familiaridade com o tema e os dilemas éticos envolvidos”, explica o administrador Ivano Ribeiro, pesquisador da Unioeste e autor do artigo.
Para Renato Fabiano Cintra, pesquisador da UFGD e autor do artigo, há dificuldades em fazer pesquisas acadêmicas sobre o tema da corrupção, especialmente quando entrevistas são envolvidas. “É um assunto pantanoso, porque ninguém admite ser corrupto, mas a maioria das pessoas já presenciou algum comportamento desviante ou situação estranha”, aponta. “Quando você chega com um questionário, as pessoas podem encarar de forma defensiva.”
Diferentemente de estudos anteriores sobre o tema, o artigo recém-publicado expõe uma abordagem integrativa sobre as engrenagens da corrupção e busca entender as motivações dos atos corruptos antes de que eles aconteçam. Ao identificar a falta de autocontrole e a ausência de liderança ética como gatilhos para ações de corrupção, é possível atuar na prevenção e não apenas na punição, que só acontece após a identificação de alguma ilicitude.
“Um líder ético é um ponto-chave, porque ele freia todo esse comportamento de forma quase imperceptível”, diz Cintra. “Satisfação com salário e benefícios podem ter efeitos significativos, mas não resolvem por si só. A pessoa tem que ser valorizada, mas isso tem que estar dentro de um conjunto de práticas dentro de uma organização”, afirma.
A partir dos resultados encontrados, o grupo de cientistas pretende trabalhar mais profundamente na validação da escala de propensão à corrupção desenvolvida no artigo recém-publicado. A partir disso, eles pretendem criar uma espécie de “termômetro da corrupção”, que ajudará instituições a identificar fragilidades entre os servidores e o ambiente institucional que podem tornar funcionários mais propensos a se envolverem em atos de corrupção. Com o termômetro, será possível agir de forma preventiva.
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