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Crianças afetadas por crises e desastres climáticos têm atraso escolar e dificuldades na volta às aulas

No Brasil há mais de 2.000 escolas em áreas de risco geológico e hidrológico, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais


Analice Candioto*, Jornal da USP | 04/11/2024 | 00:00


Escolas do Rio Grande do Sul foram afetadas com as enchentes | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Os conflitos e desastres climáticos têm impactado profundamente a educação das crianças ao redor do mundo. De acordo com o Fundo Global Education Cannot Wait (ECW) da Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 222 milhões de crianças em idade escolar viram sua educação interrompida por essas crises. Esse cenário torna ainda mais grave o fato de que, segundo o ECW, apenas 120 milhões dessas crianças, ou uma em cada dez, atendem aos requisitos de proficiência em matemática e leitura.Segundo o professor Marcelo Tadeu Motokane, do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, o principal desafio enfrentado pelas crianças afetadas é lidar com o atraso escolar. O professor, que é especialista em educação, com ênfase no ensino de Ciências, explica que essa questão é “multidimensional”, pois interfere em diferentes aspectos do desenvolvimento infantil. “Por exemplo, na dimensão cognitiva, ficar longe da escola por muito tempo interrompe processos de aprendizagem, conceitos, procedimentos e atitudes que são encadeados e sequenciados.”

Além das questões acadêmicas, Motokane destaca que o retorno à escola é geralmente lento e cheio de dificuldades para essas crianças. “Toda vez que uma criança é afastada da escola, ela enfrenta barreiras no retorno, e, ao não aprender o que foi planejado, sente-se desmotivada, o que diminui seu engajamento”, afirma. Ele também alerta que o distanciamento prolongado pode desencadear problemas de saúde mental e física, como fome e desnutrição, agravando ainda mais o impacto das crises.

Para o professor Danilo Seithi Kato, do Departamento de Educação, Informação e Comunicação da FFCLRP, as crianças, principalmente as comunidades tradicionais, estão sendo atingidas por um fenômeno que é fruto da ação de uma geração anterior. “Essas comunidades são as mais atingidas por desastres climáticos e têm sido esquecidas pelo Estado e pelo poder público. Hoje há uma discussão dos riscos socioambientais e das crises climáticas, e os primeiros atingidos são essas populações que vivem em zonas de conflito. Os conflitos socioambientais marcam a realidade não só brasileira, mas latino-americana, e deveriam ser trazidos para o cerne do debate sobre os processos educativos.”

Áreas de risco

De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), existem mais de 2 mil escolas em áreas de risco, sendo 729 escolas em área de risco hidrológico, como enchentes, inundações, alagamentos e secas, e 1.714 escolas em área de risco geológico, como deslizamentos de terra, terremotos e erosões.Motokane relembra as enchentes que ocorreram no Estado do Rio Grande do Sul no começo deste ano. “Muitas cidades foram devastadas e levaram escolas inteiras com a força das águas. Milhares de crianças ficaram sem aula, moradia, escola, colegas, professores, a rotina de estudo e um ambiente adequado para aprender.” Para o professor, as escolas têm um papel fundamental em adotar medidas preventivas para reduzir os impactos dos desastres climáticos. “As escolas podem ter acesso aos materiais que o Cemaden produz e aos programas de formação de educadores que ensinam a prevenir deslizamentos e as causas das mudanças climáticas. O Cemaden não só trabalha com informação e formação para os professores, mas também faz uma série de campanhas e tem vários materiais para os alunos.”

Para Kato, é necessário que existam “políticas públicas e uma conscientização geral da população sobre a questão climática; para as novas gerações, também é importante se mobilizar quanto ao tema e retomar uma educação ambiental que recoloque essa tomada de consciência quanto ao meio ambiente”.

 

(*) Estagiária sob supervisão de Rose Talamone e Ferraz Junior


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