Saúde

Inteligência artificial prevê risco de complicação após cirurgia de tireoide

Modelo desenvolvido com dados de mais de 7.000 pacientes identifica quem tem maior risco de queda dos níveis de cálcio no sangue e ajuda a personalizar tratamento


Fernanda Bassette, Agência Fapesp | 21/10/2026 | 05:00


Hipocalcemia é uma das principais complicações da tireoidectomia total e pode ocorrer em 15% a 40% dos pacientes | Foto: Shutterstock

Uma ferramenta de inteligência artificial (IA) desenvolvida por pesquisadores do A.C.Camargo Cancer Center pode ajudar a identificar pacientes com maior risco de desenvolver hipocalcemia transitória –condição caracterizada pela queda dos níveis de cálcio no sangue após cirurgia de retirada total da tireoide.

O modelo, que apresentou alta capacidade de previsão, foi criado a partir de dados de mais de 7 mil pacientes acompanhados ao longo de dez anos na instituição e depois testado em um novo grupo de pacientes submetidos à cirurgia. A expectativa é que a tecnologia ajude os médicos a decidir quem precisa receber cálcio preventivamente e quem pode ser poupado de um tratamento desnecessário.

A hipocalcemia é uma das principais complicações da tireoidectomia total e pode ocorrer em 15% a 40% dos pacientes, dependendo do tipo de cirurgia realizada. O problema não acontece pela retirada da tireoide em si, mas devido à manipulação das paratireoides, pequenas glândulas responsáveis por controlar a quantidade de cálcio no sangue.

Esse controle é feito por meio da produção de um hormônio chamado PTH. Quando as paratireoides têm sua função temporariamente prejudicada pela cirurgia, a queda na produção desse hormônio reduz a capacidade do organismo de manter os níveis adequados de cálcio. Na maior parte das vezes, a condição é passageira, mas pode provocar sintomas e exigir tratamento.

Os sintomas mais comuns são cãibras e formigamentos, mas também podem ocorrer náuseas e vômitos e, nos casos mais graves, alterações cardíacas.

“É uma condição potencialmente grave, que piora muito a experiência do paciente, aumenta o tempo de internação, a necessidade de medicamentos e os custos do tratamento”, afirma o médico oncologista Genival Barbosa Carvalho, cirurgião de cabeça e pescoço do A.C.Camargo e um dos autores do estudo.

Segundo Carvalho, atualmente, uma das principais formas de avaliar o risco da hipocalcemia é medir o PTH depois da cirurgia. Quando o resultado é normal e o paciente não apresenta sintomas, a chance de desenvolver hipocalcemia é pequena. A dificuldade está nos casos em que o hormônio aparece reduzido, mas o paciente está sem sintomas.

De acordo com o pesquisador, mesmo em condições ideais de coleta e análise, cerca de 30% dos pacientes podem apresentar PTH baixo sem desenvolver sintomas posteriormente. Tratar todos preventivamente significaria, portanto, dar cálcio e vitamina D a pessoas que não precisariam desses medicamentos. Por outro lado, deixar de tratar quem de fato desenvolverá hipocalcemia pode fazer com que o paciente passe mal depois da alta e precise procurar um pronto-socorro.

A ideia da ferramenta

Foi justamente para tentar ajudar a reduzir essa incerteza que os pesquisadores do A.C.Camargo desenvolveram a ferramenta de inteligência artificial. O projeto, financiado pela Fapesp, deu origem ao estudo publicado em maio na revista Scientific Reports.

O modelo foi construído com base nas informações de 7.066 pacientes submetidos à retirada total da tireoide no hospital entre 2014 e 2024. Em vez de considerar apenas um exame para fazer o cálculo de risco da hipocalcemia, a IA cruzou diferentes informações disponíveis ao longo da jornada do paciente, desde características pessoais e da doença até dados da cirurgia e resultados obtidos no pós-operatório.

“O PTH é um indicador importante, mas esse exame sozinho não captura toda a complexidade do risco. O diferencial do aprendizado de máquina é conseguir integrar essa informação a diversas outras variáveis e analisar as relações entre elas. Em nosso estudo, à medida que novas informações eram incorporadas ao longo da jornada do paciente, a capacidade do modelo de distinguir o risco de desenvolver hipocalcemia aumentava”, conta Israel Tojal da Silva, cientista da computação, coordenador do Laboratório de Bioinformática do A.C.Camargo e autor sênior do artigo.

A maior precisão da tecnologia foi alcançada quando o sistema analisou as informações coletadas no período pós-operatório. Após criar o modelo com o histórico de prontuários antigos (dados retrospectivos), os pesquisadores testaram a ferramenta na prática com 149 novos pacientes operados no próprio A.C.Camargo.

Desses, 31 desenvolveram hipocalcemia transitória. Nessa etapa de validação com casos reais, a inteligência artificial demonstrou alta capacidade de distinguir quem tinha maior ou menor risco de apresentar a complicação.

Entre as informações que mais contribuíram para a previsão da hipocalcemia estava o PTH baixo, um fator de risco já conhecido pelos médicos. Mas a ferramenta também identificou outros elementos, como a realização de esvaziamento cervical bilateral (retirada dos linfonodos no pescoço) e a duração da cirurgia. Horário do procedimento e carga de trabalho do cirurgião também apareceram associados ao risco.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que isso não significa que esses fatores sejam a causa da hipocalcemia, pois eles podem refletir outras características, como a maior complexidade de determinados procedimentos.

Outro diferencial é que o sistema utiliza a chamada inteligência artificial explicável. Isso significa, que além de indicar se o paciente apresenta maior ou menor risco de desenvolver hipocalcemia, a ferramenta mostra quais informações contribuíram para esse resultado.

“Existe a ideia de que a IA funciona como uma caixa-preta, porque nem sempre sabemos como ela chegou a determinado resultado. Nesse caso, nós conseguimos mostrar quais fatores mais pesaram naquela avaliação de risco do paciente”, explica Tojal.

Na prática clínica, a ferramenta não pretende substituir os exames nem definir sozinha o tratamento. Ela funcionaria principalmente como apoio à decisão médica para casos de pacientes em que há dúvida.

“Quando acaba a cirurgia, temos três cenários. Há o paciente com exame alterado e sintomas, que sem dúvida precisa ser tratado. No outro extremo, há aquele com exame normal e sem sintomas, que não precisa fazer nada. O problema é o grupo do meio: o paciente está ótimo, não sente nada, mas o exame está alterado. Aí você não sabe se dá o remédio ou não. É nesse grupo que a ferramenta pode ajudar a indicar quem tem maior risco e precisa tratar e quem pode ser poupado”, explica Carvalho.

O sistema já foi transformado em uma plataforma web na qual os médicos inserem as informações do paciente e recebem uma estimativa individualizada de risco. O modelo está sendo testado em pacientes do próprio A.C.Camargo.

“Ao conseguirmos antecipar o risco de uma complicação, podemos planejar melhor o cuidado de cada paciente, direcionando as intervenções para quem realmente precisa. Isso pode melhorar a experiência do paciente e contribuir para uma recuperação mais segura e eficiente”, afirma Tojal.

O próximo passo é testar o sistema em outros hospitais. Embora a base usada no desenvolvimento já reúna milhares de pacientes, todos foram atendidos na mesma instituição, o que limita a possibilidade de generalizar os resultados. O software teve pedido de patente depositado e, segundo Carvalho, a intenção é disponibilizá-lo gratuitamente para instituições interessadas após a conclusão dessa etapa. “A ideia agora é disponibilizar e validar em outra série”, conclui o pesquisador.

O artigo Artificial intelligence for predicting transient hypocalcemia after total thyroidectomy pode ser lido aqui.


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