Saúde

Vacinar adultos protege bebês e freia o avanço de doenças consideradas erradicadas

Especialistas apontam baixa adesão vacinal como um dos principais fatores de risco para o ressurgimento da doença


Vitória Gomes*, Jornal da USP | 01/07/2026 | 01:00


Vacinar adultos preserva o círculo de proteção imunológica dos bebês | Foto: Senivpetro/Magnific

A não imunização de adultos ou pais de bebês recém-nascidos volta a acender um cenário preocupante na América Latina, especialmente no Brasil.

Somente no ano de 2024, foram registrados quase 7,8 mil casos confirmados de coqueluche, de acordo com dados do Ministério da Saúde um salto de mais de 7,5 mil em comparação com o ano de 2023, quando houve um surto da doença. Um dos principais fatores para esse aumento é a não vacinação de pais ou adultos que convivem com bebês de até 6 meses de idade. 

A pediatra Jorgete Maria e Silva, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP, explica que a doença se propaga com mais facilidade em crianças devido à fragilidade do sistema imunológico.

“Quanto menor a criança mais dificuldades ela tem de reagir positivamente à doença, seja pela falta de imunidade prévia, mas principalmente pelas condições anatômicas e fisiológicas do trato respiratório”, diz.

Ela enfatiza que, para sobressair nessa situação é necessário imunizar adultos ou pessoas próximas do círculo de convivência dos bebês recém-nascidos.

“A estratégia de cocoon (casulo), propõe a vacinação de todos que convivem próximos de bebês de até 6 meses de idade. Essa proposta surgiu pautada principalmente na preocupação da transmissão da coqueluche”, explica.

Jorgete ainda ressalta que a estratégia deve ser aplicada não só para a coqueluche. “Na verdade seria importante não só a vacinação para coqueluche, mas também para outras vacinas disponibilizadas pelo SUS, como influenza, sarampo e difteria.”

Desafios a serem superados

Entre as mais diversas dificuldades enfrentadas pelo sistema público de saúde, a baixa adesão à cobertura vacinal ainda persiste, sendo um dos maiores obstáculos.

“Nos últimos dois anos, houve um recrudescimento da coqueluche e essa alta está relacionada à baixa cobertura vacinal desde a pandemia da covid-19”, menciona. 

Para lidar com essa realidade, Jorgete pontua a urgência de mais vacinação.

“O cuidado preventivo, como a imunização das pessoas que convivem muito próximas aos bebês ainda é um dos maiores alicerces para lidar com esse problema de baixa cobertura vacinal que a saúde vem enfrentando. Por exemplo, a coqueluche tem uma incidência sazonal, com surtos a cada três ou cinco anos, se houvesse uma boa adesão à vacina, entre 2021 e 2022, não teríamos um surto no final de 2023”, lembra.

Medidas preventivas

Para o epidemiologista Fernando Rodrigues Bellissimo, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o aleitamento materno é uma medida eficiente que ajuda na proteção imunológica da criança.

“Além das vacinas, outro fator que contribui para a proteção do recém-nascido nesses primeiros seis meses de vida é o aleitamento materno, uma vez que o leite transfere anticorpos diretamente para a criança, especialmente para aquelas doenças contra as quais a mãe foi imunizada”, alega.

Contudo, Bellissimo destaca que a vacinação dos pais e bebês continua sendo uma ferramenta de extrema importância “Vale salientar que essa estratégia do aleitamento materno é muito importante, mas não dispensa a imunização dos adultos e crianças.”

Cuidado preventivo como alternativa

A enfermeira Karina Bordonal Gomiero Biagiotti, funcionária da clínica Itatiaia Vacinas, diz que em sua rotina diária na saúde, em uma clínica privada de vacinação, muitos pais não se vacinam, pensando exclusivamente só na saúde do bebê.

“Quando os pais vão no consultório, eu pergunto: Como está a vacina?, e eles respondem assim: ‘a minha vacina está em dia’!, nunca se preocupando com eles mesmos, apenas com o bebê”, relata.

Karina ressalta que muitos adultos e pais não se vacinam devido ao custo da imunização. “As vacinas custam geralmente R$ 200, mas muitos pais acham caro e optam por não se imunizar, não pensando a longo prazo na sua própria saúde e na do bebê.”

Ela faz um alerta importante: “A vacina pode custar caro, mas é algo que a pessoa pode tomar outra dose daqui a dez anos. Vale a pena pagar um pouco mais caro e proteger a saúde do seu bebê e também a sua”, finaliza.

 

(*) Estagiária sob supervisão de Gabriel Soares e Ferraz Jr


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