Saúde

Efeito sanfona prejudica o metabolismo e reduz a atividade da gordura marrom em mulheres

Pesquisa da Unicamp envolveu 121 mulheres entre 20 e 41 anos, com diferentes faixas de IMC


Fernanda Bassette, Agência Fapesp | 14/03/2026 | 00:00


Câmera de termografia infravermelha foi usada para captar o aumento de temperatura na região supraclavicular, indicando maior atividade do BAT | Foto: Divulgação

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) traz um alerta sobre os impactos do chamado efeito sanfona sobre a saúde metabólica feminina. Segundo a pesquisa, mulheres que passaram por sucessivos ciclos de perda intencional e reganho não intencional de peso apresentaram pior perfil cardiometabólico e menor atividade da gordura marrom, um tipo especial de gordura que ajuda a gastar energia.

O achado reforça que o problema não está apenas na oscilação do peso em si, mas no acúmulo progressivo de gordura corporal ao longo do tempo.

O trabalho, apoiado pela Fapesp e publicado na Nutrition Research, foi desenvolvido no Laboratório de Investigação em Metabolismo e Diabetes do Gastrocentro-Unicamp sob orientação de Ana Carolina Junqueira Vasques e coorientação de Bruno Geloneze. O estudo contou ainda com a participação de Laura Ramos Gonçalves Gomes e Isabela Solar.

De acordo com Vasques, o foco do trabalho foi avaliar a atividade do tecido adiposo marrom, conhecido pela sigla em inglês BAT (de brown adipose tissue), um tipo de gordura que vem despertando crescente interesse da ciência nos últimos anos por causa de seu papel potencial no manejo da obesidade, do diabetes e das dislipidemias.

Diferentemente do tecido adiposo branco, que armazena energia em forma de gordura corporal, o BAT tem função praticamente oposta: ele queima glicose e lipídios para produzir calor, contribuindo para o gasto energético do organismo. “Esse tecido é rico em mitocôndrias, que são estruturas responsáveis pela produção de energia nas células, o que lhe confere a coloração acastanhada e alta atividade metabólica”, explica a pesquisadora.

Até pouco mais de uma década atrás, acreditava-se que a gordura marrom existia apenas em recém-nascidos, ajudando na manutenção da temperatura corporal. Em 2009, porém, estudos mostraram que adultos também possuem BAT, especialmente na região supraclavicular, que inclui o pescoço, acima da clavícula e ao redor da coluna. Desde então, o número de pesquisas sobre o tema cresceu rapidamente.

No estudo da Unicamp, participaram 121 mulheres entre 20 e 41 anos, com diferentes faixas de índice de massa corporal (IMC). As participantes foram divididas em dois grupos: aquelas sem histórico de efeito sanfona e aquelas classificadas como “cicladoras”, ou seja, mulheres que relataram três ou mais episódios de perda de peso intencional seguidos de recuperação não planejada (de ao menos 4,5 kg) ao longo dos últimos quatro anos, padrão frequentemente associado a dietas restritivas em busca da perda de peso.

A escolha de estudar apenas mulheres não foi aleatória. Além de o laboratório já contar com um banco de dados feminino robusto, a pesquisadora diz que há diferenças importantes entre homens e mulheres na quantidade e na atividade da gordura marrom. “O estudo focou em mulheres jovens, ainda fora do período da menopausa, justamente para evitar interferências hormonais que alteram a distribuição de gordura corporal. Além disso, mulheres tendem a sofrer maior pressão estética e a recorrer com mais frequência a dietas restritivas, o que aumenta a ocorrência do efeito sanfona”, ressalta.

Quente e frio

Para avaliar a atividade da gordura marrom, as participantes passaram por um protocolo de exposição controlada ao frio (18 °C), considerado o principal estímulo para ativação do BAT. Primeiro elas foram colocadas em uma sala aquecida. Depois, foram transferidas para um ambiente resfriado, numa temperatura que não induziu tremor. “Se o indivíduo começa a tremer, ele terá um outro gasto de energia. Por isso a temperatura foi mantida em 18 °C, que é considerado um frio administrável”, explica Vasques.

Nos dois ambientes, a atividade do BAT foi monitorada em diversos momentos. Uma câmera de termografia infravermelha foi usada para captar o aumento de temperatura na região supraclavicular, indicando maior atividade do BAT. “Essa câmera faz imagens e capta exatamente as regiões mais quentes, pintando de cor diferente. Pela intensidade dessa cor, a gente consegue quantificar quanto esse BAT está ativado em cada participante”, explica Vasques. Também foram analisados indicadores como percentual de gordura corporal, gordura visceral, glicemia, perfil lipídico e pressão arterial.

Os resultados iniciais mostraram que as mulheres chamadas de cicladoras, com histórico de efeito sanfona, apresentavam mais gordura corporal, maior acúmulo de gordura visceral e piores indicadores metabólicos, além de menor atividade da gordura marrom. Em uma análise inicial, o efeito sanfona apareceu associado à redução do BAT. No entanto, quando os pesquisadores aprofundaram a modelagem estatística, observaram que essa relação não era direta e sim modulada pelo acúmulo de gordura.

“O efeito sanfona provavelmente atua de forma indireta. Ao longo de sucessivos ciclos de emagrecimento e reganho de peso, ocorre uma piora progressiva da composição corporal, com recuperação predominantemente de gordura e não de massa muscular. Por isso, o que realmente explica a menor atividade da gordura marrom não é o efeito sanfona sozinho, mas sim o excesso de adiposidade corporal”, diz.

Isso acontece porque, a cada dieta restritiva, o organismo aciona mecanismos de defesa para tentar recuperar o peso perdido, reduzindo o gasto energético basal, alterando hormônios da fome e da saciedade e tornando o metabolismo mais eficiente em armazenar energia. “Quando a pessoa reganha peso, ele volta principalmente na forma de gordura e não de massa magra”, explica a pesquisadora. No longo prazo, esse processo favorece o aumento do percentual de gordura corporal e da gordura visceral, fatores que estão diretamente ligados à redução da atividade do BAT.

Embora não seja possível medir a atividade do BAT num exame de rotina (isso é feito apenas em ambiente de pesquisa), Vasques diz que, do ponto de vista clínico, o estudo reforça que o manejo da obesidade não pode focar apenas nos quilos perdidos na balança. “Estratégias de tratamento da obesidade devem priorizar a qualidade da composição corporal, a redução sustentável a longo prazo do percentual de gordura e a preservação da massa muscular, com abordagens multiprofissionais e mudanças comportamentais duradouras”, afirma.

Vasques destaca ainda que, embora a gordura marrom possa ser estimulada por fatores como atividade física, redução da gordura corporal e até exposição ao frio, ela não deve ser vista como solução isolada para o emagrecimento. “Seu papel mais relevante está na melhora do metabolismo da glicose e dos lipídios, ajudando a proteger contra diabetes e doenças cardiovasculares”, conclui.

O artigo Weight cycling in women: A challenge for cardiometabolic health, not for brown fat pode ser lido  clicando aqui.


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