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Brasileiros evitam discutir política em grupos de família, mas se engajam em campanhas organizadas em apps

Mulheres se sentem menos à vontade em participar e discutir sobre política em grupos online, enquanto homens são mais confiantes e ativos para expressar suas opiniões nesses espaços


Agência Bori | 01/02/2026 | 00:00


Pesquisa mostra como brasileiros usam apps de mensagens; WhatsApp é escolhido para vínculos pessoais | Foto: Ravi Roshan

Os brasileiros se policiam e evitam entrar em discussões políticas em aplicativos de mensagens. Por outro lado, mantêm-se em grupos criados por campanhas eleitorais e recorrem ao status como meio de manifestar suas preferências.

O comportamento indica um amadurecimento no uso político do WhatsApp e do Telegram, de acordo com a quinta edição da pesquisa “Os vetores da comunicação política em aplicativos de mensagem: hábitos e percepções de brasileiros” realizada pelo InternetLab e pela Rede Conhecimento Social.

O estudo mostra que, enquanto 50% evitam falar de política no grupo da família para fugir de brigas e 52% se policiam cada vez mais sobre o que compartilham, cresceu a participação e permanência em grupos organizados em apoio a candidatos nos dois aplicativos.

Esses são alguns dos dados levantados pelos pesquisadores, que entrevistaram 3.113 pessoas usuárias dos aplicativos de mensagem nas cinco regiões do Brasil. Os resultados foram analisados a partir de uma metodologia mista, qualitativa e quantitativa, e os respondentes foram segmentados por idade, gênero, cor/raça, classe social, escolaridade, região, tamanho do município em que vivem, religião e posicionamento político autodeclarado.

Segundo os autores, os grupos de apoio a candidatos ou partidos servem como canal de mobilização online e offline.

“Existe um refinamento dessa estratégia de grupos por parte tanto de apoiadores quanto de campanhas”, diz Heloisa Massaro, Diretora do InternetLab. Metade das pessoas dizem que os  grupos seguiram ativos após as eleições e servem como meio dos candidatos manterem contato com os eleitores, e estes acompanharem as ações dos políticos.

Além dos grupos, o status do WhatsApp se aprofunda como uma ferramenta incorporada no cotidiano dos usuários. A pesquisa identificou que 90% dos usuários consumiram e 76% publicaram conteúdos no status, sendo que mais da metade utilizou para acompanhar e/ou postar sobre política. A preferência pelo status se deve ao seu caráter menos invasivo.

“Tem uma auto-organização do cidadão votante. Eu não posso me posicionar politicamente por causa do meu trabalho, mas aí vou tirar uma foto com camiseta da cor do meu candidato e postar no status”, diz Marisa Villi, diretora da Rede Conhecimento Social.

Essa estratégia política de comunicação digital deve permanecer nas eleições de 2026, com o importante acréscimo da inteligência artificial como ferramenta para a produção de conteúdo. O estudo aponta que 50% dos respondentes já usavam a IA da Meta no WhatsApp, lançada dois meses antes das entrevistas, e os mais jovens foram os principais entusiastas, com uma taxa de 62% de utilização entre os que têm de 16 a 19 anos.

Destaca-se que cresceu o número de pessoas que admitem ter repassado notícias sem checar a fonte em 2024 (41%), quebrando a tendência de queda observada desde 2022. “Existe uma consciência generalizada de que fake news é má e existe e que o correto é fazer a checagem da informação antes de repassar, mas temos dois gargalos: um que é sobre como fazer com que as pessoas chequem o que recebem, mesmo que tenha sido enviado por uma pessoa de confiança; outro, ainda mais desafiador, que é como garantir que as fontes de confirmação sejam de fato confiáveis”, afirma Villi.

A escolha entre o WhatsApp e o Telegram é feita de acordo com o objetivo da comunicação, segundo a pesquisa.

Enquanto o primeiro é visto como um aplicativo de comunicação com as pessoas conhecidas, como família, amigos, colegas de trabalho, grupos religiosos e moradores do bairro, o segundo é um espaço para interação por afinidades e assuntos de interesse.

A diferença se reflete nos tipos de grupos que predominam em cada plataforma: no WhatsApp, os grupos de família (54%) e amigos (53%) lideram, enquanto no Telegram grupos de notícias (23%), promoções (23%) e jogos (20%) são tão relevantes como amigos (27%) e trabalho (23%). O auto policiamento contrasta com o uso mais livre do Telegram, percebido como espaço de maior liberdade para acompanhar conteúdos.

A pesquisa traz tendências e introduz novas observações sobre a dinâmica social e política nas plataformas de mensagens. Edições anteriores mostraram haver saturação de interações virtuais e a consequente saída de grupos.

Nesta edição, o estudo aponta que a diminuição resultou em uma curadoria mais cuidadosa e um foco na preservação da qualidade das interações, com depoimentos de pessoas que reataram laços familiares dos quais haviam se afastado.

No recorte de gênero, observa-se que as mulheres são as que mais temem participar de debates políticos e demonstram maior preocupação sobre o que falam nos grupos. Já os homens são os que mais se sentem à vontade para expressar opiniões políticas.

Em contraste com o ano eleitoral de 2022 (eleições presidenciais), houve uma queda no recebimento e compartilhamento de conteúdos eleitorais em 2024 (eleições municipais).

A comparação com 2020, também ano de eleições municipais, mostra que há uma queda independente do tipo de eleição. O movimento reforça a tese de que os usuários estão mais contidos e segmentando os espaços para discussão política, com participação mais “nichada” em grupos de interesse particular.


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