Nacional

Doença óssea mortal dizimou dinossauros pescoçudos no atual interior de SP

Pesquisadores acharam ossos de saurópodes com marcas de osteomielite, doença infecciosa que pode ser causada por vírus, bactérias, fungos ou protozoários e que matou os animais em pouco tempo


André Julião, Agência Fapesp | 06/08/2025 | 00:00


Fósseis com marcas de doença óssea eram de saurópodes, da mesma ordem do Tambatitanis | Foto: Palaeotaku/Wikimmedia Commons

Um conjunto de ossos de saurópodes, como são chamados os dinossauros pescoçudos, encontrado no município de Ibirá, no interior de São Paulo, revela que a região favoreceu uma doença óssea mortal para esses animais.

Pesquisadores apoiados pela Fapesp encontraram em fósseis de seis indivíduos do Cretáceo, de cerca de 80 milhões de anos atrás, marcas de osteomielite, uma doença óssea que pode ser causada por bactérias, vírus, fungos ou protozoários.

Os ossos não contêm sinais de regeneração, o que aponta que os animais morreram com a doença ainda em curso, provavelmente em decorrência dela. O estudo foi publicado na revista The Anatomical Record.

“Existiam poucos achados de doenças infecciosas em saurópodes, o primeiro tendo sido publicado recentemente. Os ossos que analisamos são muito próximos entre si no tempo e de um mesmo sítio paleontológico, o que sugere que a região ofereceu condições para que patógenos infectassem muitos indivíduos naquele período”, conta Tito Aureliano, primeiro autor do estudo e pesquisador da Universidade Regional do Cariri (Urca), no Crato (CE).

Uma das lesões ficou restrita à medula. Os outros ossos, também encontrados entre 2006 e 2023 no sítio Vaca Morta, contêm marcas de lesões que vão da medula até a parte externa. As lesões têm uma textura esponjosa, que apontam uma vascularização da região e as diferencia de outras patologias que podem ser detectadas nos ossos, como osteossarcoma e neoplasia óssea, dois tipos de câncer que afetam esse tecido.

Não foram encontrados, ainda, sinais de cicatrização, quando o tecido ósseo perdido na lesão é substituído por um novo. No registro fóssil, esse sinal de regeneração é bastante comum em ossos atingidos por mordidas de outros dinossauros, por exemplo.

Análises

O estudo contou com apoio do Instituto de Estudos dos Hymenoptera Parasitoides da Região Sudeste Brasileira (IEHYPA-Sudeste), um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fapesp.

No IEHYPA-Sudeste, coordenado por Angélica Maria Penteado Martins Dias, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), os pesquisadores analisaram os ossos por meio de microscópio eletrônico de varredura (SEM) e estereomicroscópio.

Três manifestações de osteomielite ainda desconhecidas foram identificadas nos fósseis. Um conjunto continha pequenas protrusões, elevações do osso ou “calombos”, em formato circular.

Outras protrusões tinham um padrão semelhante ao de impressões digitais, num formato de elipse. Por fim, um terceiro conjunto tinha marcas redondas e largas maiores do que todas as outras. “Essas lesões podiam se conectar com músculos e pele e ficarem expostas, vertendo sangue ou pus”, explica Aureliano.

Não foi possível identificar quais eram exatamente os ossos analisados, apenas que um era uma costela e os outros eram da parte inferior dos membros, tanto de espécies pequenas quanto de gigantes. Também não foi possível identificar uma possível causa para as infecções.

Em um trabalho publicado em 2021 na Cretaceous Research, os pesquisadores haviam descrito o primeiro caso de infecção óssea causada por um parasita sanguíneo e que também resultou em osteomielite. Os ossos, naquele caso, eram de um pequeno saurópode, Ibirania parva, encontrado no mesmo local dos fósseis analisados agora.

A região, conhecida como Formação São José do Rio Preto – por englobar municípios como o de mesmo nome –, tinha clima árido, com rios rasos e lentos, além de grandes poças de água parada. Nesses ambientes, muitos dinossauros ficavam atolados e morriam, gerando os fósseis.

“Esse ambiente provavelmente favoreceu patógenos, que podem ter sido transmitidos por mosquitos ou pela própria água que era ingerida pela fauna, que incluía dinossauros, tartarugas e animais similares aos crocodilos atuais”, diz Aureliano.

O autor aponta ainda que as evidências trazidas pelo estudo podem ser úteis tanto em futuros trabalhos de paleontologia como de arqueologia, ao apresentar as diferentes manifestações de uma mesma doença nos ossos e diferenciá-la de outras.

Um vídeo sobre o trabalho pode ser conferido no canal Colecionadores de Ossos, dos autores Tito Aureliano e Aline Ghilardi.

O artigo Several occurrences of osteomyelitis in dinosaurs from a site in the Bauru Group, Cretaceous of Southeast Brazil pode ser lido aqui.


COMENTÁRIOS

Mais Lidas no mês


Batatais

Carro cai em lago artificial de Batatais na noite do feriado

Dois jovens estavam no veículo, mas saíram ilesos e recusaram atendimento médico

Gente

Morre aos 72 anos o jornalista Júlio César Bianco, voz influente da imprensa em Batatais

Colunista de estilo crítico e trajetória marcante, ele construiu carreira sólida no jornalismo local

Turismo e Eventos

Ribeirão Rodeo Music 2026 retoma programação com grandes shows neste sábado

Evento reúne Wesley Safadão, Panda, Matogrosso & Mathias e Natanzinho Lima em noite que promete agitar o público no Parque Permanente de Exposições

Batatais

Batatais realiza nova edição da 'Sextou Contra a Dengue' nesta sexta (8)

Ação da Prefeitura percorre mais três bairros com coleta de materiais e orientação para prevenir a proliferação do mosquito Aedes aegypti

Mais sobre Nacional

Nacional

Técnicas de identificação de gêmeos são insuficientes para diferenciar irmãos idênticos, diz estudo

Pesquisa aplicou três métodos para identificação de rostos de gêmeos e nenhuma foi suficiente para distinguir irmãos

Nacional

Liderança ética e percepção de risco são fatores relevantes contra corrupção no serviço público, diz estudo

Pesquisadores aplicaram questionário a 529 funcionários públicos brasileiros sobre motivações que levam à corrupção

Nacional

Bitucas de cigarro são o lixo mais comum do planeta, com 4,5 trilhões de unidades descartadas por ano

Estudo de revisão compila dados científicos de 55 países e revela níveis alarmantes de contaminação em ambientes urbanos e aquáticos

Nacional

Genoma da temida jararaca-ilhoa revela como evoluíram genes responsáveis pelas toxinas do veneno

Sequenciamento é um dos mais completos feitos em serpentes no mundo e serve como referência para todas as jararacas



Copyright © 2026 - BATATAIS 24h | Todos os direitos reservados.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo em qualquer meio de comunicação sem prévia autorização.



Byte Livre