Acesso à educação de qualidade e bom ambiente familiar desde jovens estão entre as alternativas apontadas por especialista da USP
Ao longo das últimas décadas, os índices de produtividade do trabalhador brasileiro vêm apresentando resultados ruins, o que impacta diretamente a economia do País e preocupa especialistas da área.
Segundo dados divulgados em fevereiro pela The Conference Board, organização sem fins lucrativos que se dedica à pesquisa e análise econômica, empresarial e de políticas públicas, um trabalhador brasileiro produz menos de 1/4, em termos de riqueza, do que um trabalhador norte-americano. Em comparação, na década de 80, a produtividade do brasileiro em relação ao norte-americano representava 46%.
Ainda de acordo com relatório da organização, o Brasil ocupa a 78ª posição em um ranking mundial de 113 países, ficando atrás inclusive de países da América do Sul, como Uruguai, Colômbia e Argentina, que possuem um PIB menor que o brasileiro.
O professor Luciano Nakabashi, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, especialista em crescimento e desenvolvimento econômico, classifica questões envolvendo a qualidade escolar como determinantes para a baixa produtividade do trabalhador brasileiro.
“O primeiro ponto é a qualificação dos trabalhadores. Falta o acesso a uma educação de qualidade, cursos de uma maneira geral, que até existem, porém são inacessíveis para trabalhadores de baixa renda.”
Questões familiares como o ambiente em que as crianças estão inseridas em casa e qual o acompanhamento que elas possuem quando precisam de suporte também são fatores importantes apontados pelo professor.
“Um ambiente familiar desestruturado, conflituoso e até mesmo casos de abuso impactam negativamente o aprendizado das crianças, o que contribui para a formação de um profissional que virá a ser menos produtivo.”
Além disso, Nakabashi explica que o dia a dia das empresas está diretamente ligado com a produtividade dos seus trabalhadores. “A infraestrutura, em relação à quantidade de máquinas e equipamentos por trabalhador, a tecnologia, quando não é a melhor disponível para o processo produtivo, e o excesso de burocracia são fatores que afetam a produtividade das empresas, o que está totalmente associado aos trabalhadores. Tudo o que afeta a produtividade da empresa, afeta também a produtividade do trabalho.”
Pensando a longo prazo, a baixa produtividade do trabalho é o principal fator que impacta a economia de um país. É o que destaca o docente.
“Para um país que apresenta um crescimento constante, existe uma associação direta com o aumento da produtividade do trabalho. No caso do Brasil, esse crescimento econômico, ao longo das últimas décadas, é muito baixo ou praticamente não existe, sobretudo em termos per capita, que é o mais importante para analisar aspectos econômicos.”
Jornada de trabalho
Ainda de acordo com o levantamento da The Conference Board, o Brasil fica atrás de países que possuem uma média de horas semanais de trabalho menor, como o Canadá, Austrália, Alemanha e França. Apesar disso, o especialista acredita que o Brasil não está no momento de redução da jornada de trabalho, que não é elevada, segundo ele, visto o desempenho do País nas últimas décadas.
“Em relação a uma possível redução forçada, eu acredito que seja mais importante aumentar a flexibilidade para que os trabalhadores possam escolher a quantidade de horas que eles trabalham na semana, assim como ocorre em países como os Estados Unidos, onde os trabalhadores produzem quatro vezes mais que os brasileiros.”
Nakabashi lembra que é impossível reduzir as horas semanais dos trabalhadores sem que os salários sejam reduzidos em termos reais. Segundo ele, “a economia vai produzir menos e a oferta de produtos para distribuir para as pessoas também será menor. Existe a opção de reduzir o lucro da empresa, mas nada garante que a diminuição da jornada de trabalho vai gerar essa redução do lucro e, com toda certeza, parte desses impactos vão recair sobre os trabalhadores”.
(*) Estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares
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