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Pessoas negras morrem mais de câncer na região de Barretos; na capital mortalidade é maior entre brancos

Estudo comparou taxas de mortalidade pela doença e aponta direções para reduzir desigualdades em diagnóstico e tratamento


André Julião, Agência Fapesp | 20/11/2023 | 07:00


Estudo, que teve como recorte população da capital paulista e da região de Barretos, apontou disparidade nos números de mortos por câncer, dependendo da cor de pele declarada | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

 

Os melhores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) e menor representatividade de negros na população do interior de São Paulo não impedem que esse grupo morra mais de câncer na região de Barretos do que na capital paulista, aponta estudo apoiado pela Fapesp publicado na revista Cancer Causes & Control.

Nas 18 cidades da regional de saúde de Barretos, os negros morrem 18% mais do que os brancos quando se consideram todos os tipos de câncer. O mesmo vale para os seis principais tumores. Ainda que os de estômago, colorretal e de pulmão não apresentem grandes diferenças, os de mama (18%) e do colo do útero (63%) representam uma mortalidade bem maior nesse grupo étnico. Para câncer de próstata, negros morrem 51% mais do que brancos naquela parte do Estado.

O período analisado vai do ano de 2001 a 2017, a partir de dados de mortalidade do Sistema Único de Saúde (SUS), que possui a autodeclaração de cor dos pacientes. Em ambas as localidades analisadas, tumores de pulmão foram a principal causa de morte por câncer entre brancos, negros e pardos. Entre descendentes de asiáticos, lideraram as mortes por câncer colorretal. Mulheres negras e pardas morreram mais por câncer do colo do útero do que brancas.

“Quando se considera a questão histórica do país, a escravidão e seus reflexos ainda hoje, como um maior acesso dos brancos à riqueza e aos serviços de saúde, esse resultado era esperado. Surpresa foi, no município de São Paulo, as pessoas brancas morrerem mais por todos os tipos de câncer reunidos”, afirma Adeylson Guimarães Ribeiro, diretor-adjunto de Informação e Epidemiologia da Fundação Oncocentro de São Paulo (Fosp), primeiro autor do estudo.

Os brancos da cidade de São Paulo morrem 19% a mais de câncer somando os vários tipos de tumor do que os negros, principalmente de colorretal (41%), pulmão (35%) e mama (19% a mais).

O trabalho foi desenvolvido durante estágio do pesquisador na Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês), na França, sob supervisão de Freddie Bray, chefe do Setor de Vigilância do Câncer na instituição. O período no exterior foi parte do pós-doutorado de Ribeiro no Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor (antigamente conhecido como Hospital do Câncer de Barretos) com bolsa da Fapesp.

Em estudo anterior do mesmo grupo, sem informações de raça, foi identificada uma elevada incidência e mortalidade por câncer de mama, colorretal e de pulmão entre as pessoas mais ricas da capital paulista. O dado pode ser correlacionado com as taxas de mortalidade relativamente altas desses tipos de tumor entre brancos, comparando com os negros, encontradas no estudo atual.

Os trabalhos integram o projeto “Neoplasias malignas nas 18 cidades pertencentes à regional de saúde de Barretos, São Paulo: a importância de um Registro de Câncer de Base Populacional”, apoiado pela Fapesp e coordenado por José Humberto Tavares Guerreiro Fregnani, pesquisador do Hospital de Amor, que também assina os estudos.

Segundo os pesquisadores, um dos objetivos é entender por que as desigualdades ocorrem e poder apontar formas de garantir o acesso ao diagnóstico e tratamento a todos.

Resultados alinhados

A ancestralidade pode ter participação na maior incidência de certos tipos de câncer, o que reforça a necessidade de mais atenção às populações mais vulneráveis tanto por fatores genéticos quanto socioeconômicos (leia mais em: agencia.Fapesp.br/44760/).

Os resultados publicados agora estão alinhados com outros levantamentos realizados no país, como um artigo, assinado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) apoiados pela Fapesp, que mostra a maior mortalidade por câncer de mama em mulheres brancas do que negras no Estado de São Paulo. Com um porém: a mortalidade estava caindo entre mulheres brancas e aumentando entre negras.

Outro estudo mostrou uma sobrevivência mais baixa entre mulheres negras e pardas ao câncer de mama, enquanto um trabalho revelou uma tendência de diagnóstico mais tardio desse mesmo tipo de tumor entre pretas e pardas. Os resultados estão alinhados com os de mulheres negras na região de Barretos divulgados agora.

Uma análise dos determinantes de diagnóstico tardio de câncer do colo do útero mostrou que mulheres negras têm um risco 20% maior de ter o tumor detectado em um estágio avançado do que em outros grupos étnicos.

Em relação ao câncer de próstata, estudo de 2013 havia mostrado um risco 300% maior de metástase no diagnóstico de homens negros.

“Ainda são poucos estudos no Brasil nesse sentido, mas temos a informação para poder pesquisar. Na Europa, dados pessoais que revelem a origem racial ou étnica são considerados sensíveis e não estão disponíveis. O que se tem mais na literatura são estudos a partir da população dos Estados Unidos, cujos resultados são coerentes com o que encontramos aqui”, contextualiza Ribeiro.

O artigo Ethnic disparities in cancer mortality in the capital and northeast of the State of São Paulo, Brazil 2001–17 pode ser acessado por assinantes clicando aqui.


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