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Mexilhões do litoral brasileiro confundem microplásticos com alimento natural

Animais não diferem os fragmentos sintéticos com matéria orgânica devido ao tamanho e formato similares


Agência Bori | 15/06/2026 | 02:00


Mexilhões atuam como filtros vivos e capturam passivamente os elementos que ficam à deriva ao seu redor | Foto: Olga Ernst/Wikimedia Commons

Com o descarte contínuo de resíduos nos oceanos, organismos que dependem da filtração constante da água para sobreviver, como ostras e mexilhões, enfrentam um ambiente onde nutrientes naturais e poluição se misturam na mesma proporção. Isso cria uma armadilha biológica para espécies que formam a base da culinária litorânea e da economia pesqueira.

Um novo estudo brasileiro, publicado na revista Ocean and Coastal Research, revela que o mexilhão marrom (Perna perna) não consegue diferenciar o seu alimento natural de microplásticos.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), que coletaram 80 espécimes na Praia Vermelha, na capital fluminense, e isolaram 20 indivíduos em laboratório para medir a ingestão de microalgas e esferas de poliestireno.

Os pesquisadores simularam as condições do ambiente marinho e dividiram os animais em grupos, oferecendo opções puras de microalgas, opções puras de plástico e uma mistura de ambos na mesma proporção. A equipe analisou a água dos aquários após uma hora e constatou que os bivalves consumiram os materiais de forma indiscriminada.

No tanque que continha a mistura, os mexilhões deixaram sobrar 47,99% das microalgas e 52% das esferas de plástico.

Os índices semelhantes comprovam a ausência de seletividade da espécie. A taxa de filtração da água chegou a ser maior no tanque exclusivo de plástico (627 mililitros por grama por hora) do que no tanque exclusivo de algas (270 mililitros por grama por hora).

Esses animais atuam como filtros vivos e capturam passivamente os elementos que ficam à deriva ao seu redor.

“Os mexilhões se alimentam por filtração, capturando as partículas em suspensão na coluna d’água. Os microplásticos se tornaram uma ameaça por serem encontrados nos sistemas marinhos em tamanhos variados e dentro da faixa de partículas naturais sendo, portanto, confundidos como alimento”, explica a bióloga Raquel Neves, umas das autoras do estudo e pesquisadora do Departamento de Ecologia e Recursos Marinhos (DERM) da UNIRIO.

A entrada contínua de polímeros no corpo do animal gera um risco toxicológico secundário. Durante a fabricação do plástico, a indústria adiciona componentes químicos industriais. Esses aditivos pegam carona no microplástico ingerido e se instalam no organismo dos mariscos.

“Esses contaminantes possuem forte afinidade química por órgãos gordurosos, o que faz com que, após o consumo de microplásticos, os animais se contaminem com substâncias químicas que causam efeitos adversos à sua saúde”, alerta a pesquisadora.

O impacto ambiental ultrapassa a água e atinge diretamente a mesa do consumidor. Enquanto o calor extremo do fogão resolve problemas biológicos pontuais, ele é ineficaz contra a ameaça sintética.

“Para microrganismos patogênicos ou mesmo parasitas gastrointestinais, o consumo de alimentos cozidos já é suficiente para reduzir os riscos à saúde. Entretanto, para biotoxinas, microplásticos, metais e contaminantes químicos, o cozimento não reduz os níveis de contaminação dos mexilhões, sendo, portanto, transferidos à população”, reforça Neves.

Proteger as comunidades costeiras e frear a contaminação em cascata exige ações práticas que cortem a poluição na origem. O poder público precisa aplicar políticas rígidas de gestão costeira para reduzir o despejo de efluentes no mar e restringir massivamente a circulação de plásticos descartáveis, aponta a pesquisa.

A expansão da fiscalização, a aplicação de multas severas contra o despejo irregular por empresas e o monitoramento científico constante das áreas de maricultura são os caminhos viáveis para garantir que a economia e o consumo de frutos do mar sobrevivam com segurança no futuro.


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