Saúde

Uso de zolpidem pode provocar efeitos colaterais e alterações no comportamento durante o sono

Pacientes devem ter atenção redobrada ao fazer tratamento de curto prazo da insônia


Maby Ferreira*, Jornal da USP | 04/11/2026 | 01:30


Uso de zolpidem reforça a importância da supervisão médica | Foto: Freepik

O zolpidem é um medicamento utilizado no tratamento da insônia, especialmente nos casos em que há dificuldade para iniciar o sono. Apesar de sua ação rápida, o uso exige cuidados devido aos efeitos colaterais, risco de dependência e à ocorrência de comportamentos incomuns durante o sono, como o sonambulismo e a amnésia de episódio. 

Pertencente à classe dos hipnóticos, o fármaco atua no sistema nervoso central, potencializando a ação do ácido gama-aminobutírico (GABA), um neurotransmissor que contribui para a redução da atividade cerebral. Esse mecanismo favorece a sonolência e facilita o início do sono.

De acordo com o professor Alan Luiz Eckeli, livre-docente em Neurologia e Medicina do Sono da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o medicamento é indicado principalmente para casos de insônia aguda, caracterizados pela dificuldade para adormecer. “Ele está indicado para o que entendemos de insônia aguda, ou seja, em pacientes que possuem dificuldades para iniciar o sono. Ele é, também, uma medicação indicada para o tratamento de quatro semanas, não devendo ser utilizado de maneira contínua.”

Apesar de ser uma boa opção de tratamento, o remédio precisa de atenção redobrada durante seu uso devido aos riscos e efeitos colaterais como a sonolência residual no dia seguinte, tontura e alterações de memória, especialmente relacionadas aos acontecimentos posteriores à ingestão do medicamento.

Comportamentos durante o sono

Um dos riscos mais preocupantes associados ao zolpidem é a ocorrência de comportamentos complexos relacionados ao sono. Nesses episódios, a pessoa pode realizar atividades sem estar consciente e, após o efeito, não se recordar do que aconteceu.

Entre os exemplos estão episódios de sonambulismo, alimentação durante o sono e outras ações realizadas de maneira automática. Em determinadas situações, o paciente pode fazer ligações ou enviar mensagens sem ter consciência plena de seus atos, e em casos mais extremos, ele pode sofrer acidentes domésticos e dirigir atos sexuais. “O indivíduo que faz uso da medicação, mas não inicia o sono, pode ter comportamentos anormais, como transtorno alimentar, efetuar compras on-line, dirigir relações sexuais sem lembrar disso. Esses eventos diversos são menos frequentes, mas importantes de prestar atenção”, afirma. 

Eckeli explica que esses fenômenos podem envolver uma dissociação entre diferentes estados de atividade cerebral. “O que acontece é uma dissociação entre os estados cerebrais de vigília e de sono, possivelmente tendo regiões ativas do cérebro, principalmente em circuitos motores relacionados à visão, que farão com que o indivíduo caminhe e tenha atividade motora.” O doutor complementa, ainda, que pacientes que apresentem episódios graves devem procurar orientação médica, pois a ocorrência de um comportamento complexo durante o uso requer avaliação para interrupção do medicamento conforme orientação profissional.

Terapias não farmacológicas como alternativa

O tratamento da insônia não se resume apenas ao uso de medicamentos. Entre as abordagens não farmacológicas, a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é uma das estratégias com evidências consistentes de eficácia, especialmente nos casos de insônia crônica.

A terapia trabalha hábitos, rotinas, pensamentos e comportamentos que podem causar insônia. Entre as intervenções estão a reorganização dos horários, o controle de estímulos associados à cama e estratégias para reduzir a preocupação excessiva com o sono.

“Os benefícios são bastante exuberantes, sejam de curto prazo, mas também de longo prazo. Estudos comparativos demonstram que essas técnicas podem ser até mesmo superiores à medicação”, diz o professor ao comentar os resultados das intervenções comportamentais.

O doutor destaca a terapia de aceitação e compromisso como uma abordagem que pode auxiliar algumas pessoas a lidar com a ansiedade relacionada ao sono. A proposta é reduzir a luta contra a insônia e desenvolver uma relação menos angustiante com as dificuldades para dormir.

 

(*) Estagiária sob supervisão de Gabriel Soares


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