Pesquisa compara modelos brasileiro e norte-americano e propõe uma trajetória integrada para que jovens possam conciliar formação esportiva e acadêmica
Aos 17 anos, Carolina Fortes de Azevedo precisou fazer uma escolha que ainda faz parte da realidade de muitos jovens brasileiros. Atleta federada de voleibol e sem estrutura para conciliar a rotina competitiva com o vestibular, interrompeu a carreira esportiva para se dedicar aos estudos, abdicando de um futuro no esporte profissional.
Agora, morando nos Estados Unidos e com duas filhas em idade escolar, a ex-atleta quis entender por que os dois países desenvolveram modelos tão diferentes de esporte universitário.
A experiência pessoal de Carolina deu origem ao Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) O Esporte Universitário nos Estados Unidos e no Brasil: Uma Análise Comparativa de Desafios e Oportunidades, apresentado ao MBA em Gestão de Esportes da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP deste ano.
O estudo, que compara a história, os desafios e as possibilidades de desenvolvimento do esporte universitário nos dois países, traz como proposta uma maior integração de escolas, clubes, universidades e ligas esportivas brasileiras.
A pesquisadora esclarece que não se trata de reproduzir o modelo norte-americano, nem de substituir o papel histórico dos clubes, mas “de integrá-lo de forma mais estruturada a escolas, universidades, federações e ligas”. Carolina defende que o Brasil possa aproveitar elementos do modelo norte-americano que façam sentido no contexto brasileiro, criando uma trajetória em que o jovem possa desenvolver seu potencial esportivo sem precisar escolher precocemente entre estudar e competir.
Para embasar essas ideias, a pesquisadora levantou e comparou a trajetória histórica desses esportes no Brasil e nos EUA, além de entrevistar 28 pessoas, entre atletas, ex-atletas, treinadores, gestores, pais e outros profissionais, analisando os benefícios e limitações de cada modelo. Como principal diferença, destaca o papel da universidade na formação esportiva.
Enquanto os Estados Unidos consolidaram o esporte universitário como uma etapa da trajetória que começa na escola e pode chegar ao esporte profissional, o Brasil forma atletas de alto rendimento principalmente nos clubes e federações. As universidades brasileiras desenvolvem o esporte, sobretudo como espaço de integração, lazer, saúde e convivência estudantil.
Com essas informações, Carolina, sob orientação do professor Carlos Roberto Bueno Jr. da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP, defende a integração das instituições de educação e esporte brasileiras, em que a escola teria participação mais forte na ampliação do acesso à prática esportiva, enquanto os clubes continuariam a contribuir para a formação de atletas. As universidades, por sua vez, poderiam ampliar as oportunidades de ingresso e oferecer condições para que o estudante mantivesse a carreira esportiva sem abandonar a formação acadêmica.
Estudos e esporte só combinam com rede de apoio
A experiência pessoal de Carolina ajuda a explicar por que a chamada dupla carreira é um dos pontos centrais de sua pesquisa. No Brasil, muitos atletas de base enfrentam dificuldades para conciliar treinamentos, competições e estudos. “A infraestrutura esportiva é desigual, os recursos são limitados e o número de clubes com condições de formar atletas em alto nível é restrito”, informa.
A realidade no País faz com que a escolha entre esporte e educação possa acontecer cedo demais, como a que ocorreu com a própria pesquisadora, que, aos 17 anos, deixou o voleibol competitivo para se preparar para o vestibular. A diferença dos EUA, segundo Carolina, é que a universidade ocupa um lugar diferente nessa trajetória. As instituições contam com departamentos esportivos, equipes competitivas e serviços de apoio aos estudantes-atletas, como tutoria acadêmica, acompanhamento de desempenho, preparação física e atendimento médico. O recrutamento começa ainda na escola e alguns atletas recebem bolsas parciais ou integrais.
Mas nem tudo é perfeito no modelo norte-americano. Conta a pesquisadora que a rotina dos estudantes-atletas pode ultrapassar 60 horas semanais entre atividades acadêmicas e esportivas. Lesões, pressão por resultados, disputa por vagas nas equipes e transferências entre universidades podem afetar a formação. Nos esportes de maior receita, a crescente comercialização acrescentou ainda a necessidade de administrar contratos, patrocínios e a própria imagem.
Assim, para Carolina, a dupla carreira (esporte e academia) só pode funcionar quando existe uma rede de apoio. “O desafio não é apenas formar atletas de alto rendimento, mas garantir que eles possam se desenvolver como estudantes, profissionais e indivíduos”, afirma.
Clubes e universidades como parceiros
Para o Brasil, a pesquisadora propõe que os clubes, em vez de atuarem isoladamente como principal espaço de formação, passem a integrar uma rede com instituições de ensino e entidades esportivas. A escola poderia ampliar as oportunidades de iniciação e participação esportiva, enquanto os clubes continuarão responsáveis por parte importante da formação técnica e do alto rendimento.
Já as universidades “poderiam oferecer caminhos para a continuidade simultânea dos estudos e da carreira esportiva”. Federações, ligas e confederações participaram da articulação do sistema.
Carolina lembra que essa integração também poderia envolver novas formas de ingresso no ensino superior. Ela cita como referência experiências recentes de vestibulares específicos para estudantes-atletas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). São iniciativas que “poderiam inspirar iniciativas mais amplas”.
Mas como entrar na universidade não seria suficiente, a pesquisadora defende a permanência do estudante no esporte com o oferecimento de tutoria acadêmica, flexibilidade em avaliações e prazos durante períodos de competição e viagens, além de apoio em saúde física e mental, nutrição, fisioterapia, orientação profissional e educação financeira. “São mudanças que beneficiaram o próprio esporte brasileiro”, continua Carolina, afirmando que, ao ampliar o acesso ao ensino superior por meio do esporte, o sistema teria condições de fortalecer a dupla carreira e, ao mesmo tempo, criar novas possibilidades de identificação e desenvolvimento de talentos.
Estudante-atleta no centro das atenções
As mais de 30 horas de entrevistas realizadas por Carolina ajudaram a revelar que o esporte universitário brasileiro já possui uma importante mobilização estudantil. As associações atléticas organizam competições, atividades de lazer e ações de integração, muitas vezes sustentadas pelo trabalho voluntário dos próprios estudantes.
Na USP, por exemplo, “existe uma rede de atléticas articulada pela Liga das Atléticas Acadêmicas da USP (LAAUSP)”, informa Carolina, afirmando que esse protagonismo representa uma importante experiência de liderança, embora ainda necessite de maior apoio institucional e recursos para garantir sua continuidade.
Mas a incorporação do esporte de alto desempenho ao ambiente educacional exige cautela. A experiência norte-americana mostra que, quando a competição assume posição dominante, podem surgir tensões com a formação acadêmica e o bem-estar dos estudantes-atletas. Assim, se o Brasil ampliar os investimentos e criar estruturas mais robustas para essa trajetória, será necessário acompanhar seus efeitos por critérios que ultrapassem vitórias e títulos. A avaliação das instituições deve considerar também a permanência e o desempenho acadêmico dos atletas, sua saúde física e mental, a equidade e a preparação para a vida profissional. Dessa forma, o rendimento esportivo poderá ser valorizado sem se tornar a medida exclusiva do sucesso universitário. Por isso, o estudo propõe mudar a forma como o sucesso do esporte universitário é medido. Títulos e resultados esportivos continuariam importantes, mas não deveriam ser os únicos critérios. Para a pesquisadora, indicadores de desempenho acadêmico, saúde física e mental, permanência dos atletas, desenvolvimento profissional e equidade também poderiam fazer parte da avaliação das instituições.
A ideia, segundo ela, é preservar aquilo que deveria estar no centro do esporte universitário: o estudante-atleta. Mais do que formar competidores, “o sistema deveria ajudar a formar pessoas capazes de seguir diferentes caminhos depois da universidade e, se desejarem, também depois do esporte”.
O futuro do esporte universitário
A transformação do esporte universitário em uma plataforma de excelência educacional e esportiva exige uma ação coordenada e corajosa. O futuro do esporte universitário depende da capacidade de seus líderes, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, abraçarem a complexidade do cenário atual e tomarem decisões que priorizam o desenvolvimento de longo prazo dos estudantes-atletas em detrimento de ganhos comerciais de curto prazo.
Adianta Carolina que a dificuldade não está na falta de ideias, mas na complexidade da mudança desse sistema, o que, segundo ela, não pode servir de justificativa para a paralisia. “As forças que hoje pressionam por mudanças legais, econômicas, sociais e tecnológicas já estão em movimento, com ou sem planejamento, com ou sem estratégia. A questão não é se as transformações virão, mas se chegarão de forma organizada ou caótica”, afirma. Por isso, a recomendação final, e mais urgente, segundo a autora, é simples: criar os espaços de debate, instalar as comissões, ouvir os atores e, sobretudo, colocar as mãos à obra.
(*) Estagiária sob supervisão de Rita Stella
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