Economia

Três em cada dez trabalhadores da indústria relataram sintomas de ansiedade ou depressão pós-pandemia da Covid

Mulheres, jovens e pessoas com doenças crônicas apresentaram maior chance de sintomas de estresse, ansiedade e depressão


Agência Bori | 23/10/2026 | 02:00


Em 10% dos trabalhadores, os sintomas relatados eram graves ou gravíssimos | Foto: Mikael Blomkvist/Pexels

Quase três em cada dez trabalhadores de empresas industriais relataram sintomas de estresse, ansiedade ou depressão durante o início da recuperação econômica, após a pandemia de covid-19 no Brasil. Entre eles, cerca de 10% tiveram sintomas graves ou extremamente graves, segundo levantamento da FGV EAESP (Escola de Administração de Empresas de São Paulo) e do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO) nesta sexta-feira (23).

A pesquisa reuniu 2.241 trabalhadores de nove empresas dos setores de manufatura e construção civil que permaneceram em operação durante a pandemia. Entre outubro e novembro de 2021, os participantes responderam voluntariamente a um questionário on-line e anônimo, que avaliou sintomas de estresse, ansiedade e depressão. O instrumento identifica a presença e a intensidade desses sintomas, mas não estabelece diagnósticos clínicos. A maioria dos respondentes exercia funções administrativas, e quase metade trabalhava exclusivamente em home office. 

Mulheres, jovens e pessoas com doenças crônicas foram identificados com maior chance de apresentar sintomas mais intensos nas três condições avaliadas. O trabalho híbrido também esteve associado a um maior grau de estresse, ansiedade e depressão em comparação ao presencial. Os achados acompanham resultados de outras pesquisas realizadas durante a pandemia e ampliam o conhecimento sobre trabalhadores de empresas industriais, grupo ainda pouco estudado naquele contexto. O levantamento, porém, não permite concluir que o modelo de trabalho tenha causado os sintomas.

Para os autores, uma contribuição da pesquisa é chamar atenção para o sofrimento mental de pessoas que ainda hoje trabalham nessas condições, bem como para a importância de envolver tanto a organização corporativa quanto a assistência à saúde. “Não basta apenas oferecer suporte organizacional, há condições mentais que exigem assistência médica estruturada”, avalia o médico Alberto José Niituma Ogata, pesquisador do FGV Saúde, Centro de Estudos que conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). 

Segundo ele, as circunstâncias de saúde podem gerar um problema ainda maior. “No levantamento, constatamos que cerca de 10% desses trabalhadores apresentavam sintomas graves ou muito graves de ansiedade, depressão ou estresse. Quando as pessoas continuam trabalhando, mas com um comprometimento importante da saúde mental, isso pode aumentar o risco de acidentes. As empresas precisam olhar para essa situação antes que isso resulte em um afastamento”, afirma Ogata. 

Na avaliação do pesquisador, o poder público e os serviços privados precisam acolher esses trabalhadores, oferecer tratamento e acompanhar o cuidado ao longo do tempo. Isso inclui facilitar o acesso a profissionais de saúde mental e amparar pacientes que enfrentam dificuldades com medicamentos e continuidade do tratamento. “O sistema de saúde tem que estar preparado para cuidar dessas pessoas”, defende.

Ana Maria Malik, também pesquisadora do FGV Saúde, médica e coautora do artigo, destaca a distância entre a visibilidade do tema e a capacidade de atendimento. “Está todo mundo falando em saúde mental, mas ainda falta infraestrutura para atender as pessoas”, afirma. 

Os resultados do estudo oferecem subsídios para pensar políticas públicas e ações nas empresas, com atenção aos grupos mais vulneráveis, e destacam a necessidade de estratégias direcionadas de saúde mental no local de trabalho. Segundo Ogata, o FGV Saúde está preparando um termo de cooperação com a Fundacentro, instituição vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, para desenvolver novas pesquisas sobre saúde mental e trabalho.


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