Estudo mostra que espécies marinhas brasileiras concentram mais nutrientes essenciais do que carnes bovina, suína e de frango
Os pescados de origem marinha da costa brasileira, como tainha, sardinha brasileira e caranguejo-do-mangue, têm maiores concentrações de nutrientes essenciais para a saúde em comparação com fontes de proteínas terrestres, como gado, frango e porco.
Porém, o consumo médio de pescados no Brasil é de apenas 5,3 kg por pessoa ao ano, abaixo dos níveis recomendados pela FAO, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. Já o consumo das demais proteínas animais chega a cerca de 68 kg por pessoa ao ano.
Essas são as principais constatações de artigo publicado no periódico científico Nature Food por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e colaboradores de instituições nacionais e internacionais.
Segundo o trabalho, o aumento da participação dos pescados na dieta poderia reduzir significativamente deficiências nutricionais entre a população brasileira, como as de vitamina A e de cálcio.
Os pesquisadores analisaram dados de consumo alimentar de mais de 30 mil entrevistados, obtidos a partir da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, realizada pelo IBGE, considerando as diferenças de padrões de consumo entre regiões e classes sociais.
Em seguida, verificaram dados de composição nutricional de diferentes fontes de proteína, além de estatísticas pesqueiras referentes a 2015, considerando espécies capturadas e quantidade em toneladas, por ano, de cada estado brasileiro.
O trabalho apresenta a primeira avaliação em escala nacional da contribuição dos pescados marinhos para a nutrição da população brasileira, explica Maria Luiza Gallina, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e autora principal do artigo.
O estudo é fruto da colaboração entre pesquisadores do grupo de síntese ReefSyn e da rede de pesquisa PPBio IntegraMar, coordenada por Mariana Bender, professora da UFSM e autora sênior da publicação.
Os pescados de origem marinha representam cerca de 6% do total de proteínas animais consumidas no país.
Um aumento de 25% no consumo de frutos do mar poderia contribuir para a obtenção dos níveis adequados de ômega-3 entre a população brasileira, enquanto um aumento de 50% garantiria a obtenção de cálcio, magnésio e zinco nos níveis ideais.
As carnes bovina e de frango dominam o consumo de proteína animal no Brasil, revela o artigo. Já a ingestão de frutos do mar é mais limitada às classes C, D e E da região Norte e às classes A e B no Sul e Sudeste. Maranhão e Pará são os estados com maior consumo médio de frutos do mar (14,6 e 13,2 kg ao ano por pessoa, respectivamente), enquanto os menores índices são de Paraná e Rio Grande do Sul (1,69 e 1,65 kg por ano, respectivamente).
Os resultados sugerem que, especialmente entre as populações de menor renda, o pescado representa uma importante fonte de nutrientes essenciais, reforçando seu papel para a segurança alimentar e nutricional.
A pesquisa também revela que a demanda por pescados já excede a oferta proveniente da pesca em diversos estados brasileiros. Em apenas quatro estados a oferta foi maior do que a demanda: Amapá, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
“Isso sugere que o aumento da produção pesqueira possui limitações e que estratégias voltadas ao consumo de espécies com maior valor nutricional podem maximizar os benefícios à saúde da população”, avalia Gallina. Além de otimizar os recursos pesqueiros, o trabalho sugere medidas como a promoção da aquicultura sustentável e o incentivo a dietas diversificadas, ricas em frutas, grãos e vegetais.
Segundo Mariana Bender, autora sênior do estudo, os resultados reforçam a importância do pescado como fonte de nutrientes essenciais para a população brasileira, mas também evidenciam lacunas importantes no conhecimento sobre o setor pesqueiro no país.
“Nosso estudo mostra o grande potencial dos recursos pesqueiros para promover uma alimentação mais saudável, mas também revela que ainda precisamos avançar significativamente no monitoramento da pesca, na compreensão de quais espécies são efetivamente consumidas pela população e no entendimento da cadeia produtiva do pescado no Brasil. Essas informações são fundamentais para subsidiar políticas públicas que conciliem segurança alimentar, conservação da biodiversidade e uso sustentável dos recursos marinhos”, destaca.
O trabalho também evidencia que ampliar o acesso ao pescado pode trazer benefícios importantes para a segurança alimentar e nutricional da população brasileira, especialmente entre os grupos socialmente mais vulneráveis.
“Os resultados mostram que o pescado pode contribuir de forma importante para a qualidade da alimentação dos brasileiros. O desafio é conciliar esse potencial com a conservação dos estoques pesqueiros e uma gestão sustentável da pesca”, conclui Gallina.
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