Saúde

90% dos médicos não se sentem capacitados para comunicar más notícias, diz pesquisa brasileira

Aproximadamente 40% relataram nunca ter recebido treinamento específico sobre o tema durante a graduação


Agência Bori | 17/07/2026 | 02:00


Comunicação empática: o cuidado que faz a diferença | Foto: Vitaly Gariev/Unsplash

Nove em cada 10 médicos dizem não estar preparados para dar más notícias, e 4 em cada 10 nunca receberam qualquer treinamento para isso na faculdade. É o que mostra um estudo feito com 2.418 médicos candidatos à residência na Unifesp e publicado na Revista Bioética nesta sexta (17).

O questionário foi originalmente direcionado a 3.850 médicos candidatos aos programas de residência de uma universidade federal em São Paulo que realizaram a prova de ingresso em novembro de 2016.

Deles, 1.213 entregaram o questionário em branco e 219 forneceram respostas incompletas ou inválidas. Assim, a amostra final validada para o estudo foi de 2.418 candidatos.

A pesquisa consistiu em um estudo transversal do tipo survey e a coleta de dados ocorreu em novembro de 2016 por meio de um questionário autoaplicável.

Ele foi elaborado por uma equipe multidisciplinar de especialistas e validado por um estudo-piloto, que foi entregue aos participantes uma hora antes do início de uma prova de seleção.

O instrumento avaliou o perfil sociodemográfico, experiências prévias, percepções éticas sobre esse tipo de comunicação e o conhecimento técnico sobre o protocolo SPIKES, um roteiro estruturado em seis etapas (preparação, percepção, convite, conhecimento, emoções e estratégia) que orienta médicos na comunicação de más notícias de forma clara e empática.

Embora 65% dos médicos conheçam o protocolo SPIKES, a etapa “E” (Emotions), referente ao manejo das emoções de pacientes e familiares, foi apontada como a fase mais desafiadora da comunicação.

Esse dado reflete a insegurança dos profissionais em lidar com reações emocionais e o receio de que demonstrações de empatia, como chorar ou abraçar, sejam interpretadas como falta de controle ou fraqueza.

“A má notícia nunca vai virar uma boa notícia, mas existem formas de acolher e de ajudar esse paciente, de forma compassiva, a enfrentar aquele problema e aquela condição que ele vai vivenciar”, afirma Daniel Alveno, fisioterapeuta, docente universitário e um dos autores da pesquisa. Ele atua com cuidados paliativos na Unifesp há cerca de 15 anos.

Houve também divergências entre especialidades clínicas e cirúrgicas. Os candidatos a especialidades cirúrgicas demonstraram um perfil mais pragmático e menor preparo emocional comparados aos da área clínica, apresentando uma maior resistência à participação da equipe multidisciplinar no processo.

Além dos aspectos técnicos, o estudo revelou uma contradição ética importante entre a preferência pessoal do médico e sua prática profissional. Quase 99% dos participantes declararam que, se fossem pacientes, gostariam que a notícia fosse dada diretamente a eles, sozinhos ou com um familiar, e mais de 90% gostariam que essa comunicação fosse feita de forma completa.

Ainda assim, mais de 30% – principalmente o grupo de cirurgia – admitiram que compactuariam com a chamada “conspiração do silêncio” (omitir informações a pedido da família).

Vale notar que essa prática, muitas vezes motivada pelo receio de gerar conflitos ou romper vínculos familiares, contraria o Código de Ética Médica e acaba ferindo a autonomia do paciente e pode levar a desfechos negativos, como a perda da capacidade de tomar decisões sobre a própria vida.

Outro ponto destacado pela pesquisa é o impacto sistêmico da comunicação ineficaz, que pode resultar em distanásia (prolongamento artificial da vida acompanhado de sofrimento desnecessário).

“Muitos pacientes acabam nesse caminho porque a equipe não conseguiu conversar com a família sobre limitações de suporte. Essa comunicação mal feita acaba gerando um custo absurdamente maior, um desgaste emocional gigantesco para a família e um desgaste emocional e técnico para a equipe”, diz o autor.

O impacto não é apenas financeiro, mas também social e técnico. “No SUS, muitas vezes há necessidade de vaga de UTI e essa vaga está ocupada por um paciente crônico que nem deveria estar lá por falha de comunicação da equipe com a família”, diz.

Os médicos apontaram ainda a comunicação de óbito como o tipo de notícia mais difícil de dar, e os pais do paciente como os familiares mais difíceis de informar. Os achados dialogam com outras pesquisas sobre a dificuldade adicional de comunicar a morte de pacientes jovens aos seus pais.

Diante do cenário onde a vasta maioria dos recém-formados se sente despreparada, a pesquisa ressalta que a comunicação deve ser tratada como uma habilidade técnica treinável e essencial para humanizar o processo de morte e evitar o uso excessivo de recursos hospitalares.

“Não adianta ter conhecimento se não souber fazer esse conhecimento chegar ao paciente. Isso também precisa ser ensinado. Não é um dom, algo inato. Estudar tecnicamente comunicação é parte da formação como profissional de saúde”, pontua Alveno.

O uso de estratégias didáticas práticas, como a dramatização, é apontado como um caminho fundamental para que o profissional desenvolva a segurança necessária para manejar a complexidade dessa interação. Além da formação individual, os achados apontam para a necessidade de uma abordagem multidisciplinar, em que a responsabilidade pela comunicação seja compartilhada.

“Essa habilidade de comunicação não pode ser apenas do médico; ela tem que se estender aos demais profissionais de saúde, como fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, porque realmente é algo que falta em todas as áreas profissionais”, comenta Alveno.

Essa colaboração não apenas aumenta a confiança do médico no processo como garante um suporte emocional mais robusto ao paciente e seus familiares.


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