Saúde

Síndrome dos ovários policísticos terá novo nome para destacar impactos metabólicos

Mudança pretende refletir melhor os efeitos da síndrome para além das questões ginecológicas e dos ovários, mas os protocolos de diagnóstico e tratamento permanecem os mesmos


Susana Oliveira*, Jornal da USP | 26/06/2026 | 00:30


Mudança busca ampliar a compreensão sobre uma condição que afeta milhões de mulheres e vai além dos ovários | Foto: Magnific

Asíndrome dos ovários policísticos (SOP), uma das alterações hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva, passará a se chamar Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina a partir de 2028. A mudança foi proposta por um consenso internacional de especialistas e anunciada durante um congresso de Endocrinologia realizado em Praga, na Chéquia.

A intenção é tornar mais evidente que a condição não apresenta apenas implicações ginecológicas e reprodutivas, mas também está relacionada a importantes alterações metabólicas e hormonais que podem trazer consequências para a saúde ao longo da vida.

Atualmente, a síndrome é conhecida principalmente por sintomas como irregularidade menstrual, acne, aumento de pelos no corpo e dificuldade para engravidar.

No entanto, especialistas argumentam que o nome utilizado há décadas não representa toda a complexidade da condição. Segundo estimativas apresentadas pelo consenso internacional, cerca de 170 milhões de mulheres convivem com a síndrome em todo o mundo.

A ginecologista Ana Carolina Sá, professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, explica que a síndrome costuma se manifestar ainda na adolescência, logo após as primeiras menstruações.

“A síndrome acomete mulheres em idade reprodutiva. Normalmente ela se manifesta já desde as primeiras menstruações”, afirma.

De acordo com a especialista, a condição é marcada por um conjunto de alterações hormonais que interferem no funcionamento do sistema reprodutor feminino.

Entre os sinais mais frequentes estão os ciclos menstruais irregulares e o aumento da produção de testosterona pelos ovários. Esse excesso de hormônios masculinos pode provocar acne, aumento da oleosidade da pele, crescimento excessivo de pelos e queda de cabelo.

Além dos impactos físicos, a síndrome também pode afetar a fertilidade. “Uma das repercussões importantes que muitas vezes trazem a mulher ao consultório do ginecologista é que também pode cursar com infertilidade, uma certa dificuldade para engravidar, já que a mulher não ovula todos os meses”, explica Ana Carolina.

O nome atual da síndrome está relacionado à aparência dos ovários observada em exames de imagem. Nesses casos, é comum identificar diversos pequenos folículos que não conseguem completar o processo de amadurecimento e ovulação. No entanto, segundo a professora, essa característica é apenas uma consequência da doença e não sua causa.

“Eu costumo dizer para os meus alunos que é como a febre na infecção. A febre não é a culpada. Você tem uma infecção que precisa diagnosticar e tratar, e a febre é apenas o sinal de alerta. O ovário repleto de cistos funciona de forma parecida”, compara.

A especialista explica que o problema está relacionado a alterações nos mecanismos hormonais que regulam a ovulação. Em vez de um único folículo crescer e liberar um óvulo a cada ciclo menstrual, vários folículos começam a se desenvolver simultaneamente, mas nenhum consegue completar o processo. Como resultado, eles permanecem acumulados nos ovários, formando o aspecto característico que deu origem ao nome da síndrome.

Embora as alterações reprodutivas sejam as manifestações mais conhecidas, um dos principais motivos para a mudança de nomenclatura é destacar os impactos metabólicos da condição. Segundo Ana Carolina, mulheres com a síndrome apresentam maior risco de desenvolver resistência à insulina, alterações nos níveis de colesterol, obesidade e doenças cardiovasculares.

“Esse aumento dos hormônios masculinos no corpo feminino predispõe a uma piora no perfil lipídico, com aumento do colesterol ruim e redução do colesterol bom, além de modificações na sensibilidade à insulina”, explica.

Essas alterações favorecem o acúmulo de gordura na região abdominal, um padrão mais associado ao risco cardiovascular.

Como consequência, as pacientes apresentam maior predisposição ao desenvolvimento de diabetes, hipertensão arterial, aterosclerose e outras doenças metabólicas. A professora ressalta que esses riscos não se restringem às mulheres com excesso de peso. “Nós temos mulheres portadoras da síndrome que são magras, mas que também apresentam resistência à insulina e outras alterações metabólicas”, afirma.

Ainda assim, a síndrome está associada a uma maior facilidade para ganhar peso ao longo da vida. “Não quer dizer que todas as mulheres com a síndrome serão obesas, mas existe uma associação forte e uma predisposição dessas mulheres a ganharem peso e se tornarem obesas”, destaca.

Para Ana Carolina, a inclusão da palavra “metabólica” no novo nome pode contribuir para que médicos e pacientes compreendam melhor a amplitude da condição. Segundo ela, muitas vezes a atenção fica concentrada apenas nos sintomas ginecológicos, enquanto os riscos metabólicos acabam recebendo menos atenção.

“Se o médico não tem essa consciência de que a síndrome envolve a questão metabólica também, ele vai tratar a irregularidade menstrual e o excesso de pelos, mas pode deixar de investigar alterações importantes como diabetes, hipertensão e dislipidemias”, explica.

Apesar da mudança de nomenclatura, os critérios de diagnóstico e as formas de tratamento permanecem os mesmos. O acompanhamento continua baseado na avaliação dos sintomas hormonais, na regularização dos ciclos menstruais e no monitoramento dos fatores de risco metabólicos.

“Tudo continua igual, tanto a forma de fazer diagnóstico quanto os exames solicitados e os tratamentos utilizados”, afirma a professora. Ela reforça que a síndrome não possui cura definitiva, mas pode ser controlada com acompanhamento médico adequado. “Não é uma doença que a gente trata, é uma doença que a gente controla.”

Segundo a especialista, o principal objetivo da mudança é ampliar a conscientização sobre a condição e incentivar uma abordagem mais completa do problema. “A mudança do nome vem para chamar atenção para a relevância da questão metabólica”, conclui.

 

(*) Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


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