Jovens adultos entre 18 e 29 anos foram o grupo com maior incidência de novos casos
O tabagismo se intensificou no Brasil durante a pandemia de Covid-19, sem voltar ao patamar de antes. O número subiu de 10,35% da população que fumava para 15,88% no ápice da crise e fixou-se em 12,2% no pós-pandemia.
Os achados são de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), liderados por Deborah Carvalho Malta, publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia.
O estudo epidemiológico usou os dados da “ConVid 2 — Pesquisa de Comportamentos”, coletados entre julho e dezembro de 2023. A metodologia foi a amostragem em cadeia virtual (Respondent Driven Sampling — RDS), técnica na qual os participantes recrutam novos participantes a partir de suas próprias redes de contatos online.
Malta explica que jovens adultos entre 18 e 29 anos foram os mais vulneráveis a começar a fumar, possivelmente pelo elevado sofrimento experimentado por essa faixa etária durante a pandemia, como a falta de interação com amigos, o isolamento social e a menor capacidade de lidar com situações estressoras.
Pessoas sem companheiro(a) também aparecem entre os mais vulneráveis, uma vez que o(a) parceiro(a) tende a funcionar como fonte de apoio e suporte social.
Já a população negra tende a fumar mais por razões socioeconômicas e pelo impacto do racismo; menor acesso a apoio psicossocial e maior exposição a situações de estresse ao longo da vida.
“Há uma associação importante entre o cigarro e a saúde mental. O cigarro acaba sendo usado quase como uma muleta em situações de estresse para manter a estabilidade emocional”, diz Malta.
O trabalho também demonstra que o aumento do consumo de álcool foi o fator com maior poder de predição para quem passou a fumar durante a pandemia — quem bebia mais tinha chance 6,5 vezes maior de começar a fumar.
O estudo sugere ainda a necessidade de ações integradas que unam saúde mental e controle do tabaco, servindo como alerta contra retrocessos nas metas de saúde de 2030, especialmente diante da pressão da indústria para a liberação de novos produtos.
“Acendemos o sinal amarelo, pois o tabagismo voltou a crescer no Brasil, especialmente entre jovens e adolescentes, impulsionado por esses novos produtos. Precisamos avançar na regulação, punição das redes sociais que vendem ilegalmente, fiscalização e campanhas educativas”, afirma Malta.
Por fim, os pesquisadores indicam que as próximas investigações devem focar no impacto dos novos produtos de tabaco, como vapes e cigarros eletrônicos, uma vez que a popularização desses dispositivos e a ausência de indicadores específicos sobre eles no estudo atual limitaram uma análise mais profunda de sua influência na iniciação ao tabagismo.
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