Cultura e Comportamento

Brasil pode chegar a 70 mil academias até 2027; redes sociais reforçam cultura fitness

Especialistas apontam que a geração Z é atraída pela estética e socialização nas academias, enquanto millennials buscam saúde e prevenção de doenças


Luís Martins*, Jornal da USP | 21/06/2026 | 00:30


Crescimento das academias reflete a expansão da 'onda fitness', impulsionada pela busca por saúde, bem-estar e também por padrões estéticos nas redes sociais | Foto: Freepik

A “onda fitness” se tornou algo cada vez mais presente na sociedade atual, e o Brasil representa um dos principais países que aderiram a esse estilo de vida. Um dos grandes resultados dessa representação é o salto no número de academias registradas em solo brasileiro.

Segundo levantamento do Panorama Setorial Fitness Brasil, esse número quase triplicou desde 2015, saindo de 22.581 CNPJs ativos para pouco mais de 60 mil em 2025. Números que, até 2027, podem atingir os 70 mil, o que já consolida o País como o segundo no mundo em quantidade de centros de atividades físicas, atrás apenas dos Estados Unidos.Esse salto expressivo no número de academias tem explicação, passando pela constante propagação da vida saudável nas redes sociais e pelo maior valor que a população tem dado para saúde física e mental, como explica o professor Carlos Bueno, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP.

“Há vários fatores que explicam essa expansão, como o maior valor que a população tem dado para saúde física e mental e o aumento do nível de prática de atividade física, além de influências estéticas associadas a redes sociais e o envelhecimento da população. Temos na academia um crescimento bem considerável do público acima de 60 anos que busca longevidade, autonomia e prevenção de doenças.”

A alta presença da geração Z nas academias é outro fator que impressiona. De acordo com um levantamento da Les Mills, empresa neozelandesa especializada em programas de treino, cerca de 70% dos frequentadores de academias pertencem a essa faixa etária.

Esse número que não reflete apenas uma geração preocupada com a saúde, mas também a busca incessante pela padronização, muitas vezes implementada pelas plataformas digitais, é o que reforça o professor Paulo Santiago, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP.

“A Geração Z, embora se preocupe com o bem-estar, é brutalmente motivada pela estética. Cerca de 45% desses jovens apontam a aparência física como o principal motivo para treinar. Como essa geração é nativa digital, para eles, a academia não é só um local de suar a camisa, é um ambiente de socialização e pertencimento. É um lugar ‘instagramável’ para ver e ser visto.”Essa busca por qualidade de vida e estética tem seus bons efeitos, porém desde que seja de modo controlado e com acompanhamento, o que a internet pode “jogar contra”, trazendo uma pressão pelo culto da perfeição corporal, afetando principalmente os jovens, gerando efeitos mentais que podem ser prejudiciais, como explica a doutora em Psicologia Tatiane Possani, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.

“São inúmeros os impactos para o jovem que acessa esse tipo de conteúdo com alta frequência, principalmente a insatisfação corporal, o que facilita a busca pela mudança do corpo, muitas vezes a qualquer custo e de forma não saudável, através de dietas altamente restritivas e pensamentos obsessivos em relação à mudança do corpo. É possível identificar sintomas dentro dos critérios diagnósticos de transtornos mentais, como os transtornos alimentares, efeitos que causam vários sofrimentos e impactos importantes para a saúde e para o funcionamento do gerenciamento da vida.”

Diferentes gerações e objetivos

E não são apenas os jovens da geração Z que aderiram a essa busca pela rotina saudável. Os millennials, nascidos entre 1981 e 1996, também fazem parte da alta porcentagem das academias, muito devido ao incentivo das redes e à maior preocupação com um envelhecimento saudável.

“As redes sociais ajudam a disseminar informações, mas a mudança de chave para os millennials é puramente biológica: eles estão envelhecendo. A fisiologia mostra que é justamente a partir dos 30 anos que começamos a sofrer mudanças metabólicas e a perder massa muscular, um processo natural chamado sarcopenia. A rede social atua mostrando a eles, com base em estudos, que o treinamento de força é essencial para a longevidade. Mas a motivação real é que a ‘conta biológica’ chegou”, explica Santiago.

 

Apesar de todos os benefícios associados à prática de atividade física, especialistas alertam que a cultura fitness também pode reforçar padrões corporais difíceis de alcançar. Nesse cenário, a linha entre a busca por saúde e a pressão estética se torna cada vez mais tênue, especialmente em um ambiente dominado pelas mídias sociais.

“É preciso considerar que o acesso à informação aumentou e que a divulgação sobre saúde, bem-estar e atividade física faz parte do dia a dia, seja através de professores, da família, profissionais da saúde ou das redes sociais. O problema é que nem sempre as informações, principalmente nas redes, são positivas. Muitas vezes o cuidado com a saúde destaca mais a performance do que o cuidado saudável, enquanto influenciadores digitais mostram rotinas idealizadas, com condições e recursos que não fazem parte da realidade de grande parte dos brasileiros”, explica Tatiane.

Em meio ao crescimento acelerado do número de academias no País e à forte presença das redes sociais na rotina das diferentes gerações, especialistas apontam que a prática de atividade física pode trazer benefícios importantes para o bem-estar físico e mental. Enquanto muitos jovens da geração Z são atraídos pela estética e pela socialização nesses espaços, os millennials tendem a buscar mais saúde e prevenção de doenças. A influência de pares também tem papel importante nesse processo.

“Ver amigos ou influenciadores treinando, adotando hábitos mais saudáveis e mudando a rotina pode estimular transformações positivas. Ainda assim, é preciso manter um olhar crítico sobre os padrões apresentados nas redes, já que esses perfis alcançam milhões de seguidores e exercem grande influência sobre comportamentos e estilos de vida”, conclui Bueno.

 

(*) Estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


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