Economia

Empregos verdes no Brasil estão estagnados há 10 anos e deixam os mais pobres para trás

Estagnação é sinal de que a transição energética ainda não está gerando uma expansão significativa de empregos orientados para o ambiente


Agência Bori | 20/06/2026 | 00:00


Empregos verdes no Brasil representam apenas 16% do total e não avançam há 10 anos | Foto: Hoan Ngọc/Pexels

Apesar de toda a mobilização global em torno da transição energética, os empregos verdes no Brasil representam apenas 16% do total de postos de trabalho —e essa fatia não saiu do lugar em dez anos.

Pior: os trabalhadores negros, pardos e indígenas seguem concentrados nos setores mais poluentes e mais vulneráveis à descarbonização, com empregos mais precários, menor escolaridade e menor renda.

Essas são as principais conclusões de um working paper produzido por pesquisadores do Instituto de Economia da UFRJ para o projeto DIP-BR (Descarbonização e Política Industrial: Desafios para o Brasil), que mapeou a evolução e os padrões estruturais dos empregos verdes no Brasil entre 2014 e 2024.

Para chegar a esses resultados, o estudo combinou microdados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua com tabelas de insumo-produto para estimar tanto os empregos verdes diretos — gerados dentro dos setores ambientalmente orientados— quanto os indiretos, criados ao longo das cadeias produtivas.

As atividades foram classificadas em três categorias: verdes (diretamente ligadas à proteção ambiental ou com capacidade de induzir a transição em outros setores), marrons (com alto impacto ambiental, como extração de petróleo, agropecuária intensiva e siderurgia) e neutras (serviços com baixo impacto direto).

A estagnação da fatia de empregos verdes em 16% ao longo de toda a década indica que o mercado de trabalho brasileiro ainda não absorveu a transição energética de forma estrutural.

Ao mesmo tempo, o estudo revela que os chamados empregos marrons — mais precários, menos formais e de menor escolaridade — concentram desproporcionalmente trabalhadores negros, pardos e indígenas.

Com a descarbonização, esses trabalhadores serão os mais expostos ao risco de desemprego e os menos preparados para migrar para os setores em expansão. Sem políticas específicas de requalificação e transição justa, a mudança para uma economia de baixo carbono pode aprofundar desigualdades já existentes em vez de reduzi-las.

Outro achado que desafia o senso comum diz respeito aos salários por nível educacional. Em média, empregos verdes pagam mais do que os marrons — mas essa vantagem desaparece entre os trabalhadores com ensino superior.

Para esse grupo, os setores marrons e neutros oferecem remunerações superiores às dos setores verdes, o que pode representar um obstáculo à atração de profissionais altamente qualificados para as atividades ambientalmente orientadas.

Os pesquisadores defendem que uma transição verde efetiva no Brasil exige políticas que vão além do incentivo à produção limpa. É necessário articular estratégias industriais com políticas de emprego, educação e requalificação profissional, priorizando setores verdes com maior capacidade de encadeamento produtivo e direcionando programas de formação para os trabalhadores mais vulneráveis à descarbonização.

O estudo também aponta que o multiplicador de emprego de um setor é determinado muito mais pela sua posição nas cadeias produtivas do que pela intensidade direta de mão de obra, o que significa que expandir setores verdes com cadeias domésticas robustas gera muito mais empregos do que simplesmente aumentar o número de atividades classificadas como verdes.

Entre 2014 e 2024, houve uma lenta realocação do mercado de trabalho: os empregos marrons recuaram de 62,5% para 59,3% do total, enquanto os neutros avançaram. Os empregos verdes, no entanto, permaneceram estáveis.

No campo dos rendimentos, os salários médios cresceram em todas as categorias em termos reais, mas a distância entre empregos verdes e marrons se ampliou, reforçando tanto a atratividade dos primeiros quanto a desvantagem relativa dos segundos.

No segmento dos multiplicadores, o estudo identificou a indústria automotiva como o setor verde com maior potencial de geração de empregos indiretos, com multiplicador de 7,44, resultado que reforça os argumentos em favor de uma política industrial que combine eletrificação da frota com adensamento da cadeia produtiva local em baterias, motores e eletrônica de potência.

O Brasil enfrenta simultaneamente dois desafios: reduzir emissões e gerar empregos de qualidade em um contexto de desigualdade estrutural. Este estudo oferece um retrato detalhado de como esses dois objetivos se relacionam e onde as tensões são mais agudas.

Os resultados indicam que a transição verde, se conduzida sem atenção às cadeias produtivas e ao perfil dos trabalhadores mais vulneráveis, pode ser socialmente danosa.


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