Resultados preliminares com crianças de 18 a 36 meses indicam potencial para avaliação precoce e facilitada de dificuldades na comunicação pragmática
Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) demonstrou resultados preliminares promissores de um protocolo de fácil aplicação e baixo custo para avaliar habilidades de uso pragmático da linguagem em crianças com menos de 36 meses com suspeita de autismo.
O Roteiro de Observação de Linguagem na Perspectiva Pragmática (ROLPP) possibilita que mesmo fonoaudiólogos com pouca experiência na área contribuam para a avaliação de sintomas frequentemente negligenciados no processo, justamente pela dificuldade em obter e mensurar tais dados. As conclusões foram publicadas na revista CoDAS (Communication Disorders, Audiology and Swallowing) em 29 de maio.
O protocolo avalia habilidades sociocognitivas e pré-verbais associadas à comunicação pragmática, ou seja, ao uso da linguagem relativo à sua compreensão, para além de seus aspectos formais.
A ferramenta permite a observação de quatro funções comumente ausentes ou comprometidas em indivíduos no espectro autista: responsividade, que pode ser observada pela maior latência de tempo, inconsistência na resposta ou ausência de resposta ao próprio nome; contato ocular e atenção compartilhada, com a dificuldade de coordenar o olhar em algumas interações; aspectos sociocognitivos relativos à imitação; e jogo simbólico, associado à habilidade de representação e simbolização. Estas habilidades são avaliadas durante interação lúdica com o profissional, também gravada para análises posteriores.
Com o objetivo de verificar o desempenho do protocolo, as pesquisadoras aplicaram o ROLPP com 22 crianças de entre 18 e 36 meses de idade, verbais ou não verbais, separadas entre dois grupos: aquelas com suspeita de TEA, mas diagnóstico descartado, e as com suspeita de TEA e diagnóstico confirmado. No momento do teste, as aplicadoras não sabiam a qual grupo cada criança pertencia.
Vale destacar um achado contraintuitivo: o grupo com diagnóstico descartado apresentou proporcionalmente mais crianças não verbais, o que reforça o argumento central do ROLPP — de que a avaliação pragmática independe da presença de fala.
Aqueles com diagnóstico confirmado tiveram pontuações mais elevadas no protocolo, indicando maior prejuízo nas habilidades associadas à comunicação pragmática. A diferença foi significativa em todas as quatro áreas avaliadas, evidenciando a capacidade do protocolo em diferenciar padrões de comunicação entre os grupos. Os próprios autores descrevem os resultados como preliminares e apontam a necessidade de mais estudos para melhor compreensão dos benefícios e desafios do instrumento.
Considerando a importância da avaliação e intervenção precoce, o uso de instrumentos que facilitam o processo é fundamental.
“Os resultados podem contribuir para avaliações mais precoces e mais detalhadas das habilidades comunicativas infantis, o que impacta diretamente o planejamento terapêutico e o acompanhamento das crianças e de suas famílias”, relata a pesquisadora Ingrid Ya I Sun.
“Além disso, o ROLPP propõe uma organização observacional que aproxima a avaliação clínica das situações reais de interação da criança. A comunicação humana vai muito além das palavras. Muitas vezes, aspectos como olhar, troca social, atenção compartilhada, brincadeira e intenção comunicativa são fundamentais para compreendermos como a criança se relaciona com o mundo e com o outro. A chave aqui é entender como a comunicação ocorre, independente se a criança fala ou não”, conclui a pesquisadora.
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