A iniciativa é do Laboratório de Etologia e Bioacústica (Ebac) da FFCLRP e inclui monitoramento de ninhos em Ribeirão Preto e no distrito de Bonfim Paulista, com atenção à região do Parque Olhos d’Água, onde a urbanização substitui rapidamente áreas rurais e plantações de cana-de-açúcar. Nesse contexto, o estudo investiga a plasticidade fenotípica da espécie e seus limites diante das pressões urbanas.
Segundo a professora Patrícia Ferreira Monticelli, coordenadora do laboratório e orientadora do trabalho, “a plasticidade fenotípica é a capacidade de um organismo ajustar comportamento, fisiologia ou morfologia em resposta ao ambiente, sem mudanças genéticas imediatas. Não se trata de um processo evolutivo”. Essa capacidade pode ter valor adaptativo e decorrer de aprendizagem ao longo da vida do indivíduo.
O doutorando do Ebac Mauro Monteiro Cazentine acrescenta que a coruja-buraqueira apresenta mudanças comportamentais em ambientes urbanos, incluindo ajustes nos horários de atividade, aumento da tolerância à presença humana e alterações na dieta conforme a disponibilidade de presas.
Apesar disso, há limites adaptativos. Patrícia destaca que “não há plasticidade que vença a frequência com a qual tocas são soterradas pela construção e não se conhece a possibilidade de criar resistência à contaminação por pesticidas”, indicando que a adaptação comportamental não impede o declínio quando a mortalidade supera a capacidade reprodutiva.
Sinantropia e falsa sensação de segurança
Nesse contexto, a coruja-buraqueira é frequentemente classificada como espécie sinantrópica, associada a ambientes humanos e usuária de áreas abertas urbanas. Cazentine explica que essa classificação pode gerar falsa percepção de segurança populacional, pois a presença visível não garante viabilidade a longo prazo.
Em Ribeirão Preto, ele relata que “a urbanização provoca alterações comportamentais como maior exposição diurna, mais tempo fora do ninho e em vigilância, uso de estruturas artificiais como postes e placas de trânsito e maior tolerância à presença humana”.
Essas mudanças coexistem com ameaças diretas, incluindo atropelamentos, perda de ninhos por obras, redução de áreas de forrageamento e aumento da predação por cães, gatos, gambás e teiús. O pesquisador acrescenta que ainda há mortes associadas a crenças culturais que atribuem mau agouro à espécie.
Participação social
Entre os riscos menos visíveis está o soterramento de ninhos durante obras civis. Terrenos licenciados podem permanecer vazios por anos e serem ocupados pelas corujas antes do início das construções. “A ausência de nova triagem ambiental faz com que tocas sejam interpretadas como abandonadas. Chega o trator, mexe em toda aquela terra, os filhotes vão ser soterrados vivos e ninguém fica sabendo que animais foram mortos ali por causa dessa falta de informação”, diz Patrícia.
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem instrumentos jurídicos específicos para proteção das tocas, equiparando-as à proteção já existente para árvores ameaçadas. A coordenadora destaca que a espécie presta serviços ecossistêmicos relevantes ao controle de pragas urbanas, alimentando-se de baratas, escorpiões, ratos e camundongos. “A presença de tocas em áreas urbanas pode representar troca de serviços entre espécies, com benefício ao controle biológico natural”, garante.