Opinião

Opinião: Por que o Brasil e as Américas estão despreparados para vírus negligenciados além de dengue e zika

Pesquisadora alerta que epidemias surgem de patógenos que circulam silenciosamente por anos


Marielena Saivish*, via Agência Bori | 28/02/2026 | 13:00


Nem todo vírus que circula recebe atenção proporcional ao risco que representa | Foto: Freepik

Quando se fala em vírus transmitidos por mosquitos nas Américas, quase todo mundo pensa imediatamente em dengue ou zika. Esses nomes já fazem parte do noticiário, das campanhas de saúde e do cotidiano da população. Mas, longe dos holofotes, outros vírus circulam silenciosamente há décadas, infectando pessoas, animais e mosquitos sem chamar atenção dos sistemas de vigilância. Entender por que esses vírus permanecem invisíveis é essencial para evitar que o próximo surto chegue sem aviso.

Vírus como rocio, ilhéus e cacipacoré já foram detectados em diferentes regiões do Brasil e das Américas desde o século passado. Eles pertencem ao mesmo grupo de vírus da dengue e da zika e compartilham características biológicas importantes. Ainda assim, permanecem fora da maior parte dos sistemas de vigilância, diagnóstico e preparação para surtos.

Isso não acontece porque esses vírus sejam raros, mas porque muitas das infecções que causam passam despercebidas. Na prática, uma pessoa com febre, dor de cabeça e mal-estar dificilmente será testada para além da dengue. Sem exames específicos, esses casos entram em categorias genéricas, como “síndrome febril”, e desaparecem das estatísticas. O vírus continua circulando, mas os números simplesmente não o mostram.

Outro fator é histórico. Os sistemas de vigilância nas Américas foram moldados para responder a epidemias de grande impacto imediato. Quando um vírus deixa de causar surtos frequentes ou passa longos períodos sem chamar atenção, ele tende a sair do radar. Isso cria um ciclo: sem dados, não há prioridade; sem prioridade, não há investimento em diagnóstico ou pesquisa.

Há também desafios estruturais. Ampliar a vigilância para incluir mais vírus exige capacitação laboratorial, métodos padronizados e integração entre pesquisa científica e saúde pública. Não se trata apenas de custo, mas de planejamento contínuo. Em muitos países, a infraestrutura existe de forma desigual, concentrada em centros de referência, o que dificulta a detecção em regiões mais afastadas.

Esse cenário se torna ainda mais relevante diante de mudanças ambientais e climáticas. A expansão urbana desordenada, o desmatamento e o aumento da temperatura favorecem a proliferação de mosquitos e ampliam as áreas de circulação viral. Vírus que antes pareciam restritos a contextos específicos podem encontrar novas oportunidades de transmissão.

Compreender por que esses vírus permaneceram invisíveis é um passo essencial para evitar surpresas futuras. A história recente mostra que epidemias raramente surgem do nada. Muitas vezes, elas são o resultado de patógenos que circularam silenciosamente por anos antes de serem reconhecidos. Ampliar o olhar para além dos vírus mais conhecidos não significa alarmismo, mas sim aprender com o que já está presente e ainda pouco observado.

 

(*) Marielena Saivish é pesquisadora em arboviroses e atua atualmente na University of Texas Medical Branch (UTMB), nos Estados Unidos, e na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp)


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