Medo de assaltos e falta de áreas de descanso seguras impede motoristas de parar para dormir, agravando o problema
Muitos motoristas preferem pegar a estrada de madrugada para fugir do trânsito. No entanto, essa estratégia pode conter uma desvantagem letal. Um novo estudo brasileiro, publicado na revista Brazilian Journal of Medical and Biological Research, revela que a chance de sofrer um acidente grave é de 3 a 3,5 vezes maior entre as 02h00 e as 04h00 da manhã do que durante o dia.
A pesquisa, conduzida pelo Instituto Mauá de Tecnologia em parceria com a USP e a Universidade de Swansea (Reino Unido), analisou dados de rodovias federais para isolar o fator horário. A conclusão derruba o senso comum de que estrada vazia seria sinônimo de segurança.
Segundo os autores, o perigo nesses horários não vem de fora, mas de dentro do veículo: é o próprio motorista lutando contra seu relógio biológico.
“O fato de um acidente ocorrer em uma estrada de baixo tráfego, envolvendo um único veículo em um trecho reto, é um indicador de que o relógio interno do motorista e seu desalinhamento com o horário social podem ser fatores influentes”, escrevem em comentário os autores Vanderlei Parro, Simon Folkard e Claudia Moreno.
O estudo classifica o viajar de madrugada como um comportamento de alto risco, especialmente para pessoas que não estão acostumadas a ficar acordadas à noite. O pesquisador é taxativo ao comparar a fadiga com a embriaguez. “Dirigir com sono é comparável a dirigir sob efeito de álcool em termos de risco”, alertam. “A recomendação mais forte é evitar dirigir nesses horários sempre que possível”.
O estudo toca em um ponto crucial de política pública: por que os motoristas não param para descansar? Segundo os autores, a infraestrutura das rodovias brasileiras joga contra a segurança. “Um dos principais motivos pelos quais os motoristas, principalmente os de caminhão, não param para descansar ou tirar cochilos curtos é o medo de roubo e furto de carga”, apontam.
Muitas empresas de transporte, monitorando os veículos por rastreadores, chegam a proibir paradas em locais não autorizados, forçando o profissional a seguir viagem mesmo exausto.
“Investir em áreas de descanso bem iluminadas, seguras e com vigilância adequada é uma intervenção crítica. Essas áreas não apenas incentivam os motoristas a parar, mas também abordam as preocupações de segurança que hoje agem como uma grande barreira”, concluem os pesquisadores.
O estudo aponta que a redução da mortalidade nas estradas depende de uma ação conjunta. Se por um lado o motorista precisa respeitar seus limites biológicos, por outro, o poder público deve garantir a infraestrutura para isso. “Melhor iluminação, educação do motorista e campanhas de conscientização pública contribuem para estradas mais seguras”, afirmam, reforçando que a ciência deve pautar as novas políticas de trânsito para salvar vidas.
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