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Fábrica de violas: batataense coloca no mundo instrumentos produzidos em seu quintal

Com 'alma violeira', Rafael Teixeira preserva a cultura caipira tocando, ensinando e fabricando violas e violões


Melissa Toledo - Editora de Conteúdo | 08/04/2018 | 07:02


Rafael Teixeira posa em sua oficina de violas em Batatais: ‘vivo isso’ | Foto: B24h

Ele toca, ensina, fabrica, encanta e se encanta diariamente pela viola. Instrumento dos mais versáteis, ela é paixão e ofício do batataense Rafael Câmara Teixeira. Com oficina e sala de aula no Jardim Elena, ele já fez, sozinho e artesanalmente, cerca de 30 violas e, segundo sua estimativa, ensinou ao menos 500 alunos a tocar.

Os números superlativos sugerem mais idade, mas Teixeira tem apenas 31 anos –dos quais cerca de 20 foram vividos tendo som de viola como trilha sonora principal.

“Não existe instrumento igual. A viola se encaixa em tudo, desde uma música clássica até qualquer outra. Isso por conta da sonoridade dela. O timbre da viola é muito bonito e tem várias afinações”, afirma.

Ele conta que com precoces 8 anos já se interessava pela música, e aos 12, dedilhou os primeiros acordes do instrumento do qual jamais se distanciaria.

“Minha família gosta de tocar. Meu pai tocava violão em casa, na sala; meu irmão toca violão e cavaquinho. Eu peguei gosto, mas sempre fui voltado para música raiz. Aí ganhei uma violinha quando eu tinha uns 12 anos e, de lá para cá, não parei.”

Autodidata, depois que já dominava a execução do instrumento, frequentou aulas em um curso em Ribeirão Preto para se habilitar na parte teórica de violão e viola.

O aprendizado lhe rendeu competência para também ensinar. E, de maneira voluntaria, ele passou a lecionar sua arte em um projeto social da cidade. “Comecei a dar aula por acaso”, disse.

Anos mais tarde, o acaso tomou outras proporções, as aulas se tornaram particulares e individuais e, hoje, ele até perdeu a conta de quantas pessoas da cidade e região ele ajudou a aprender a tocar.

“Jogando baixo, creio que uns 500 alunos tenham passado por aqui. Uns 70% são de Batatais, mas tenho alunos da região inteira, incluindo Ribeirão, Jardinópolis, Brodowski, Franca, Altinópolis”. E a faixa etária desse público também surpreende: vai de um aprendiz de musicista de tenros 4 anos até um aplicado aluno de 80. 

LUTHIERIA NO QUINTAL

A intimidade com a sonoridade e o talento musical o aproximou tanto do instrumento que Teixeira passou a entender tecnicamente, também de maneira autodidata, a estrutura da viola “de cabo a rabo”, ou melhor, das tarraxas ao tampo.

Há cerca de seis anos, começou então a trabalhar efetivamente com lutheria –profissão que abrange a produção artesanal de instrumentos musicais de corda com caixa de ressonância.

Primeiramente, fazia pequenos consertos e ajustes. Com o tempo e a experiência adquirida, passou a executar serviços cada vez mais específicos, até chegar à construção completa de um instrumento.

“A primeira viola que eu fiz inteira mesmo foi em 2015. Foi muito bom (vê-la pronta). Eu não tinha ferramenta nenhuma, a madeira eu cortava com estilete e serrinha, era tudo na mão, não tinha máquina nenhuma para ajudar”, disse.

O feito lhe rendeu tanta satisfação que a peça está guardada como relíquia, junto com exemplares também autorais de violão e cavaquinho. “Os primeiros instrumentos que eu faço eu guardo”, conta.

Com a oficina instalada no quintal de sua casa, anexa à sala onde dá aulas, não demorou para que os pedidos o “obrigassem” a fazer da fabricação artesanal de instrumentos também uma profissão.

Sua primeira comercialização de viola autoral aconteceu em 2016 e, desde então, aproximadamente três dezenas de instrumentos com a assinatura dele estão espalhadas por vários Estados brasileiros. Só em 2018, até o fim do mês de abril, ele terá concluído a produção de seis violas.

Sobre a bancada de trabalho de sua oficina estão exemplares em fase de finalização que serão despachados para Palmas (TO) e para o Chile –o que concretizará sua primeira exportação.

Pau-brasil, jacarandá, flame de maple, mogno, cedro, abeto, ébano são apenas algumas das madeiras que estão no “cardápio” da oficina de Teixeira. Há vários tipos delas consagradas na construção de violas. No entanto, a tipicidade dos materiais é somente o acorde inicial da história. A capacidade de fazer uma combinação harmônica entre eles e a sensibilidade e habilidade na feitura é que vão resultar em um instrumento de excelência.

“Eu não compro madeira nenhuma pronta. A maioria é madeira de demolição”, explica ele, contando a origem da matéria-prima de uma das violas que está em fase de produção. “Essa é de um pau-brasil que veio de Goiás. Um amigo meu tem umas terras, desmancharam um galpão por lá e tinha uma peça dessa, só na casca, que ele trouxe para cá. Quando eu vou a roças, fico caçando (...), corto e faço viola.”

Esta é uma das razões pelas quais cada instrumento feito por Teixeira se difere um do outro. “Se eu pegar duas madeiras iguais e fizer duas violas iguaizinhas, elas não darão o mesmo som. Você pode padronizar que não adianta, cada madeira é de um jeito (...), falo que sou violeiro mesmo, porque eu vivo isso. Eu consigo perceber quando uma viola está melhor ou pior. Eu consigo ouvir o som da madeira.” 

VIOLEIRO RAIZ

E foi com a viola em mão que Teixeira conseguiu conquistar o que a maioria das pessoas almeja: fazer de uma paixão a sua profissão. “Para mim é um hobby, uma coisa (tocar, ensinar e fabricar) complementa a outra”, disse.

Na lista de músicos que ele admira estão artistas tradicionais e representantes da nova geração da música. “Sou violeiro raiz, gosto muito de Tião Carreiro, Goiano & Paranaense e acho Fernando Deghi um monstro na viola”, diz, citando ainda Arnaldo Freitas, Marcus Biancardini e Adriana Farias como ícones de sua playlist inspiradora.

Ao som de um clássico entre os violeiros -Comitiva Esperança, de Almir Sater-, ele mostra no vídeo abaixo, aos internautas leitores do Batatais 24h, duas vertentes de sua arte, executando a música em uma viola criada e fabricada por ele. Para contatar Teixeira ou obter mais informações acerca de seu trabalho, acesse sua página oficial no Facebook clicando aqui.


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