Saúde

Estresse social pode fazer com que gays, lésbicas e bis consumam mais ultraprocessados

Estudo usa dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, primeiro levantamento brasileiro a incluir orientação sexual entre seus indicadores


Agência Bori | 17/03/2026 | 22:00


Mulheres lésbicas e bissexuais apresentaram maior probabilidade de consumo de álcool e doces em comparação com heterossexuais | Foto: Andres Ayrton/Pexels

Um novo estudo brasileiro analisou padrões de consumo alimentar e de bebidas alcoólicas de pessoas lésbicas, gays e bissexuais. O artigo foi publicado na revista científica BMC Nutrition e utilizou dados de mais de 85 mil indivíduos maiores de 18 anos da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em parceria com o Ministério da Saúde.

Segundo o levantamento, mulheres bissexuais reportaram probabilidade 22% maior de consumo de doces e guloseimas – um indicador de consumo de ultraprocessados – e um consumo menos recorrente de feijão e vegetais. Além disso, mulheres lésbicas e bissexuais relataram consumir bebidas alcoólicas em maior frequência (44% e 59%, respectivamente) do que as heterossexuais. Homens gays também apresentaram maior consumo de doces e guloseimas e menor consumo de feijão e peixe. A pesquisa aponta que fatores como estresse social discriminação podem estar associados esses padrões alimentares, e os achados podem contribuir para políticas públicas e diretrizes nutricionais mais inclusivas para a população LGB no Brasil.

A Pesquisa Nacional de Saúde incluiu a variável orientação sexual pela primeira vez em sua edição mais recente, de 2019. Dos mais de 85 mil indivíduos que participaram da pesquisa, 84,359 se declararam heterossexuais, 520, como bissexuais e 980, como homossexuais.

Segundo o pesquisador Sávio Gomes, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e orientador do trabalho de conclusão de curso do aluno Paulo Gustavo Cruz, que motivou o artigo, a iniciativa surgiu a partir de uma lacuna histórica na investigação científica sobre a saúde de minorias sexuais no país. Gomes é pesquisador do tema e coordenador de estudos sobre impacto da insegurança alimentar na população LGBTQIA+.

Para realizar o estudo, os pesquisadores analisaram as respostas de entrevistas coletadas na PNS e aplicaram modelos estatísticos para identificar padrões alimentares entre diferentes grupos populacionais. A análise considerou variáveis como renda per capita do domicílio, região de moradia, raça ou cor da pele e escolaridade, permitindo avaliar se as diferenças observadas permaneciam mesmo após o controle desses fatores.

Os resultados indicam que a orientação sexual se configura como um determinante social significativo associado ao consumo de determinados alimentos e bebidas no Brasil. “As diferenças de orientação sexual no consumo de alimentos permanecem independentemente de renda, região, raça ou escolaridade, o que reforça que estamos diante de uma disparidade relevante”, ressalta Gomes.

Um dos aspectos que chamou a atenção dos cientistas foi a maior vulnerabilidade nutricional observada entre mulheres lésbicas e bissexuais. “Essa vulnerabilidade significa que essas mulheres podem estar mais expostas a padrões alimentares que impactam negativamente a saúde a longo prazo. A exposição a uma alimentação não saudável também pode ser um indicador de maior exposição a estressores sociais”, aponta o pesquisador.

Os autores também levantam a hipótese de que fatores como preconceito, discriminação e exclusão social possam influenciar o comportamento alimentar. “O consumo de doces, refrigerantes e álcool pode estar associado a respostas fisiológicas relacionadas ao sistema límbico e à regulação da dopamina”, explica Gomes. Em contextos de vulnerabilidade psicológica, podem ser acionados mecanismos relacionados à busca por recompensa e regulação do estresse.

Outro achado interessante está relacionado ao consumo de carne vermelha entre homens. Tradicionalmente associada a padrões culturais de masculinidade, essa preferência pode variar conforme a orientação sexual. A pesquisa mostra que homens gays consomem carne vermelha e feijão com menor frequência do que homens heterossexuais, mas ingerem frango com maior regularidade.

Os autores avaliam que os resultados trazem contribuições relevantes para a formulação de políticas públicas e estratégias de saúde mais inclusivas. “Compreender de forma mais detalhada os padrões de consumo é essencial para desenvolver intervenções nutricionais direcionadas e estratégias de saúde pública capazes de reduzir essas iniquidades”, afirma Gomes.

O grupo de pesquisa já trabalha em novos desdobramentos do estudo, como análises sobre a relação entre orientação sexual e obesidade, saúde mental, violência e prevalência de câncer, além de estudos sobre possíveis diferenças entre gerações.

A pesquisa contou com apoio do Programa de Iniciação à Pesquisa da UFPB, voltado à formação de estudantes de graduação em atividades científicas.


COMENTÁRIOS

Mais Lidas no mês


Gente

Morre Carlos Roberto Alliprandini, o Carlos do Quintal, empresário que marcou a noite e a vida social de Batatais

Aos 65 anos, Carlos deixa uma história de empreendedorismo, amizade e encontros. Proprietário de alguns dos bares e estabelecimentos mais conhecidos da cidade, tornou-se sinônimo de quem sabia receber, trabalhar e fazer a noite acontecer

Batatais

Acidente entre dois caminhões deixa motorista ferido na Altino Arantes

Vítima de 34 anos precisou ser estabilizada por bombeiros

Batatais

Tempo seco faz incêndios dispararem em Batatais

Em apenas dois meses, total de focos combatidos cresceu 78,2% na cidade

Mais sobre Saúde

Saúde

Testes que combinam movimento e raciocínio podem antecipar sinais de declínio cognitivo em idosos

Detecção antecipada abre caminho para intervenções mais rápidas, com potencial de preservar a autonomia e a qualidade de vida e reduzir a progressão da doença

Saúde

Combinação de gordura abdominal e falta de vitamina D mais que dobra risco de morte após os 50 anos

Estudo com mais de 5,5 mil pessoas indica que monitorar os níveis do hormônio e controlar o peso são medidas essenciais para evitar mortes prematuras

Saúde

Pescados da costa brasileira superam carnes em nutrientes, mas seguem pouco consumidos

Estudo mostra que espécies marinhas brasileiras concentram mais nutrientes essenciais do que carnes bovina, suína e de frango

Saúde

Uso de suplemento antes de cirurgia melhora regeneração do fígado

Experimento com camundongos feito na Unicamp testou a ação do HMB, um derivado do aminoácido leucina já usado na preservação da massa muscular



Copyright © 2026 - BATATAIS 24h | Todos os direitos reservados.


É proibida a reprodução, total ou parcial, do conteúdo em qualquer meio de comunicação sem prévia autorização.



Byte Livre