Outro destaque “foi a confirmação da ação anti-inflamatória da formulação nas amígdalas”, informa a professora, lembrando a gravidade da inflamação que o sars-cov-2 provoca chegando, em alguns casos, a uma resposta imune exacerbada, conhecida como tempestade de citocinas. “Formulações que reduzem essas citocinas inflamatórias são uma opção importante para tratar os sintomas graves da covid-19, ajudando a evitar o agravamento da doença e melhorando a recuperação dos pacientes”, destaca.
Sobre o poder antiviral da tecnologia que desenvolveram, Priscyla diz que apresenta tanto potencial de prevenção quanto de tratamento contra o sars-cov-2. Nos ensaios com células e amígdalas previamente tratadas com a formulação, os pesquisadores verificaram redução significativa da carga viral após exposição ao vírus, indicando que “a formulação inibiu a entrada do vírus na célula, minimizando a sua replicação”, com potencial na profilaxia da Covid-19.
Todos os estudos da atividade antiviral em sars-cov-2 foram realizados pela equipe da professora Priscyla em parceria com seus colegas da FCFRP, Jairo Kenupp Bastos e Ronaldo Bragança Martins, e o professor Eurico de Arruda Neto da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP.
Para a tecnologia que envolve o extrato de própolis verde, os pesquisadores criaram nanoestruturas lipídicas – estruturas de dimensão extremamente pequena, nanométrica (um bilionésimo do metro) – constituídas por óleo e substâncias tensoativas (moléculas anfifílicas, ao mesmo tempo solúveis e insolúveis em água, mas solúveis em gordura).
Essa composição e o reduzido diâmetro permitem à nanoestrutura “uma melhor internalização nas células, além de favorecer a absorção dos compostos do extrato, protegendo-os da degradação”, conta a pesquisadora.
O processo de preparação das nanoestruturas não altera ou degrada os compostos da própolis. Ao contrário, o encapsulamento aumenta a estabilidade e efeitos biológicos das substâncias ativas da própolis; entre elas, “atividades antioxidantes, antitumoral, antiviral e anti-inflamatória são potencializadas quando encapsuladas em nanoestruturas”, acrescenta.
Priscyla informa que testaram a formulação em diversas etapas até obter uma composição adequada para a administração por via oral, com uma concentração de extrato de própolis verde de 11%, que é a quantidade máxima de encontrada nos produtos comercializados atualmente.
Ela lembra, porém, que não é apenas a porcentagem de extrato que importa, mas os níveis dos principais compostos bioativos. A depender do processo de obtenção do extrato, pode ocorrer a degradação dos compostos, “como é o caso de muitos produtos à base de extrato aquoso de própolis”.
A formulação nanoestruturada obtida e testada pela equipe da USP alcança os 11% de extrato, preservando alta concentração dos compostos essenciais da própolis (artepillin-C e bacarina), mesmo em formulação aquosa.
E mais: os testes mostraram que o encapsulamento nessa nanoestrutura serve para diferentes tipos de extratos de própolis, como verificado nos resultados com a própolis vermelha brasileira (testes realizados em laboratórios da FCFRP).
Própolis verde tem alta concentração de artepillin-C
A própolis é fabricada pelas abelhas – utilizando resina de plantas e suas próprias salivas – para proteção da colmeia. Ela é usada com fins medicinais há séculos. São atribuídas à própolis funções imunológicas, anti-inflamatórias, antimicrobianas, cicatrizantes, antifúngicas, antioxidantes, entre outras.
O estudo conduzido pela equipe da USP em Ribeirão Preto utilizou diferentes modelos celulares para avaliar as atividades antiviral, antioxidante, anti-inflamatória e antitumoral da própolis verde. O extrato de própolis, fornecido pela empresa Apis Vida, de Bebedouro (SP), é fruto de uma colaboração de anos com os laboratórios da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP).
Nesse contexto, o professor Bastos contribuiu com a caracterização, preparação e avaliação biológica dos extratos, enquanto a professora Priscyla liderou o desenvolvimento da formulação nanoestruturada aquosa. Mas por que estudar a própolis verde já que existem diversos tipos de própolis?
A professora Priscyla explica que a alta concentração de artepillin-C, presente nesse tipo específico, confere propriedades medicinais e biológicas únicas, já que este é um composto bioativo amplamente reconhecido por suas atividades anticancerígena, anti-inflamatória e antioxidante.
Entre os diversos tipos de própolis, classificados principalmente pela região geográfica e plantas das quais as abelhas coletam a resina, os mais conhecidos no Brasil são a própolis verde, vermelha e marrom. Mas “a composição química de cada tipo é distinta, resultando em diferentes efeitos biológicos”, destaca a professora.
Tecnologia patenteada já virou produto comercial
Os testes com a formulação nanoestruturada foram realizados em culturas de células Caco-2, derivadas de adenocarcinoma de cólon humano. Esse modelo foi escolhido para os estudos de atividade antiviral devido à alta expressão da serina protease 2 na membrana dessas células, que é uma das principais vias de entrada do vírus nas células.
Além disso, foi realizada a avaliação da atividade antiviral e anti-inflamatória da formulação de própolis nanoestruturada em amostras de amígdalas previamente tratadas com antibióticos. As amídalas humanas foram tratadas com a formulação contendo própolis por duas horas, seguida da inoculação com o vírus sars-cov-2. Após a inoculação, os tecidos foram incubados e tratados por quatro dias. Ao final do período, foi observada uma redução maior que 80% na carga viral, além da diminuição significativa de marcadores inflamatórios, como as citocinas IL-6, IL-1β e TNF-alfa.
Os resultados do estudo acabam de ser publicados na Scientific Report. Mas a tecnologia já virou produto, que está sendo comercializado pela empresa parceira, após a obtenção da licença da patente depositada junto ao Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) do governo federal, fruto do contrato celebrado com a USP, por meio de sua agência de inovação, a Auspin. Os estudos continuam nos laboratórios de Ribeirão Preto com avaliações de outros efeitos biológicos da formulação.