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Ferrovia transoceânica projeta ganhos logísticos e riscos socioambientais

Projeto ferroviário entre Brasil e Peru busca ampliar exportações para a Ásia, mas levanta debates sobre limitações nos benefícios sociais e impactos ambientais


Joyce Pezzato*, Jornal da USP | 02/08/2025 | 21:00


Ferrovia Atlântico-Pacífico estimula o agronegócio, mas levanta debates sobre impactos locais | Foto: Freepik

A chamada Ferrovia Atlântico-Pacífico é um ambicioso projeto de integração sul-americana que propõe a ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico por meio de uma linha férrea que atravessaria o país, partindo de Ilhéus, na Bahia, até Chancay, no Peru. O principal objetivo é ampliar as rotas de escoamento da produção brasileira rumo à Ásia, especialmente à China, encurtando distâncias de 40 para 28 dias do tempo necessário para o deslocamento, e custos operacionais, fortalecendo ainda a conectividade entre os países da América Latina.

Segundo o economista Luciano Nakabashi, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, a ferrovia tem potencial para impulsionar o desenvolvimento regional e ampliar as oportunidades comerciais do Brasil com outros mercados emergentes. No entanto, ele ressalta que os principais beneficiários serão os setores da agropecuária e do agronegócio, com impacto social limitado para a população das regiões por onde a ferrovia passará.

“Afeta os produtores, chega o produto a um preço mais baixo, mas não vai ser um grande diferencial, vai ser marginal. Irá ajudar um pouco, mas penso que terá um efeito pequeno em termos de desenvolvimento econômico dessas regiões”, afirma. Ainda segundo Nakabashi, os principais efeitos locais tendem a se restringir à criação de empregos pontuais, sem grandes melhorias estruturais para as comunidades. “O impacto nas regiões acaba sendo na criação de empregos, não tem muito o que ser feito em questão da melhora na infraestrutura e querer distribuir para a sociedade esses benefícios. Isso é um investimento que está sendo feito pelo governo da China, em parceria com empresas brasileiras, então o benefício acaba ficando muito entre as partes que estão envolvidas”, completa.

Impactos ambientais e sociais em debate

Desde 2015, os governos do Brasil e da China discutem o projeto, mas apenas em 2025 houve avanço. A parceria envolve o Ministério dos Transportes, por meio da Infra S.A., e o Instituto de Planejamento e Pesquisa Econômica da China, a China State Railway Group, braço estratégico da maior empresa pública ferroviária do mundo. Até o momento, foram divulgados dados que apontam uma extensão de cerca de 5.400  km ligando o território brasileiro até o Peru. A estimativa de investimento varia de US$ 50 a US$ 100 bilhões, dependendo da extensão final e complexidade do traçado.

Para Nakabashi, a ferrovia oferece uma rota alternativa mais próxima dos países asiáticos, o que tende a reduzir custos de exportação. Produtos como soja, milho e carne, sobretudo os produzidos na região central do País, podem ganhar vantagem competitiva ao serem exportados por essa nova via. Assim, o caráter restrito desses benefícios levanta questionamentos sobre o retorno social do projeto. A conectividade e a eficiência logística favorecem o agronegócio, mas não há garantias de que os efeitos positivos se estenderão de forma significativa à população em geral.

Segundo dados da ONG WFF-Brasil, a construção da ferrovia transoceânica pode causar impactos ambientais, como o desmatamento de até 50 mil hectares e a ameaça a 40% das espécies nativas da região. Além disso, o projeto deve emitir até 4 milhões de toneladas de CO₂ por ano, de acordo com o Intergovernmental Panel on Climate Change – IPCC e alterar cerca de 25% dos cursos d’água locais, afetando ecossistemas e comunidades ribeirinhas, segundo a revista Ambiente & Sociedade.

Do ponto de vista social, a Funai realizou um estudo em que explicou que milhares de pessoas, incluindo mais de 200 comunidades indígenas, correm risco de deslocamento. A ferrovia atravessará áreas de grande sensibilidade ambiental, como o Cerrado e a Floresta Amazônica, além de unidades de conservação, como parques nacionais e territórios indígenas.

Ferrovia segue sem cronograma, à espera de definições

Por ora, o acordo firmado entre os países prevê apenas a elaboração de análises técnicas, econômicas e ambientais, ainda sem definição de orçamento ou prazos. A Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban) será responsável por acompanhar a evolução dos estudos.

Para Nakabashi, o papel dos governos estaduais é essencial na proteção ambiental, sendo necessário realizar estudos de impacto para que se possa desenvolver um projeto com o menor impacto possível sobre os ecossistemas.

Contudo, apesar do potencial logístico e estratégico da Ferrovia Atlântico-Pacífico, o projeto ainda carece de garantias quanto à sua contribuição efetiva para o desenvolvimento social das regiões afetadas, além de demandar atenção urgente aos possíveis danos ambientais.

 

(*) Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


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