Especialista aponta que o Brasil enfrenta grandes desafios de acesso e permanência; problema está na educação básica
O Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que 18,4% dos brasileiros com mais de 25 anos concluíram o ensino superior. A pesquisa trouxe avanços, considerando que em 2010 o número era 11,3%.
Apesar disso, quatro em cada cinco brasileiros ainda não têm curso de graduação. Para o professor Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados – Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP e especialista em educação, essa taxa ainda é muito baixa.
“Essa taxa traz um comprometimento com o crescimento econômico e social do País, pois há uma relação direta entre o porcentual de trabalhadores com nível superior e o PIB per capita, impactado pela qualidade da oferta. Vamos precisar fazer um esforço de ampliação do acesso e de melhoria da qualidade do ensino.”
Segundo o especialista, o principal motivo para que grande parte da população brasileira não tenha acesso ou não consiga completar o ensino superior está na origem: a baixa qualidade da educação básica no Brasil.
“De cada 100 jovens que concluem o ensino médio, só cinco aprenderam o que seria esperado em matemática. Isso é um desastre do ponto de vista dos déficits de aprendizagem que esses alunos carregam ao ingressar no ensino superior.” Ele também diz que o motivo corresponde à alta taxa de desistência no ensino superior, em que a cada 100 ingressantes, 59 desistem, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
O jovem de hoje quer uma universidade que seja muito mais dinâmica e atrativa, afirma o professor. “A universidade vai precisar ser repensada do ponto de vista desse novo cenário do mundo do trabalho e também olhar para o que o mundo do trabalho está exigindo hoje desses alunos que saem da universidade.”
Apesar das universidades públicas estarem medindo esforços para ampliar o acesso dos estudantes de baixa renda, por meio do sistema de cotas, por exemplo, ainda existem muitos desafios, afirma o professor. “As universidades federais estão enfrentando com muita dificuldade a questão das verbas discricionárias para manutenção da universidade, esses recursos estão cada vez mais limitados ou já se esgotaram nos seus orçamentos.”
Já o ensino superior privado tem crescido cada vez mais, pois cerca de 78% das matrículas no ensino superior são associadas ao sistema privado, diz o especialista. “A expansão que nós observamos nos últimos anos ocorreu principalmente pelo setor privado. Por isso é importante registrar o papel do Fies e do Prouni, mas que precisam ser repensados pois muitos já se esgotaram ou estão em baixa.” Ele também diz que “o risco do ensino superior privado está na questão da qualidade, porque grande parte do sistema está fazendo oferta pela modalidade do ensino a distância, cuja qualidade é questionável”.
Ensino no futuro
Além disso, Mozart diz que é preciso entender qual formação superior o País vai precisar para os próximos anos. “É um cenário em que as mudanças não são mais lineares, são exponenciais, isso ocorre por conta das novas tecnologias, com o advento da inteligência artificial. Não é só uma questão de ter ou não diploma de nível superior, mas de quais profissionais vamos precisar para este novo ambiente competitivo e disruptivo.”
Ele menciona que 33% das matrículas de graduação estão nos cursos de Pedagogia, Direito, Administração, Enfermagem e Contabilidade e questiona: “Será que o futuro vai exigir tantos profissionais nessas áreas ou em outras áreas que vão responder para que o País seja competitivo nesse cenário disruptivo? O que a inteligência artificial pode nos trazer do ponto de vista de mudanças no mundo do trabalho?”.
(*) Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior
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