Saúde

Negativismo às políticas de imunização se reflete no retorno de doenças extintas

Para especialistas, desinformação e campanhas pouco efetivas comprometem a adesão à vacinação infantil


Felipe Faustino*, Jornal da USP | 06/04/2024 | 07:30


Especialistas veem necessidade de melhora na comunicação de políticas vacinais | Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Doenças antes controladas, como sarampo e poliomielite, voltam a ser preocupação e novas vacinas são alvos de desconfiança. Apesar de em 2023 o Brasil registrar melhora nas coberturas vacinais em oito vacinas do calendário infantil, de acordo com o Ministério da Saúde, para especialistas, a desinformação nas mídias sociais se reflete na cultura vacinal, mantendo a imunização coletiva abaixo do ideal. 

A bióloga Nathália Pereira, mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e doutoranda no programa de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que a propagação de desinformação tem minado a confiança da população em relação às vacinas.

"Hoje, na internet, a gente vê um cenário em que toda vez que desponta uma campanha de vacinação, junto a ela vem uma chuva de desinformação, de fake news." 

Nathália Pereira – Foto: Arquivo Pessoal

Como membro do União Pró-Vacina (UPVacina), iniciativa vinculada ao Instituto de Estudos Avançados Polo Ribeirão Preto (IEA-RP) da USP, Nathália desenvolve atividades ligadas ao combate à desinformação sobre vacinas. Segundo ela, ainda que o Programa Nacional de Imunizações (PNI) continue bom, a disseminação de informações falsas tem gerado resistência em grupos específicos da população. 

A pediatra Jorgete Maria e Silva, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de  Ribeirão Preto (HC-FMRP) da USP, aponta que o relaxamento da população brasileira frente às vacinas vem de antes. "As famílias não conseguem entender que isso foi alcançado por se manter um nível bom de imunidade na população, um porcentual grande de pessoas imunes que realmente barraram a entrada dos vírus." 

Ela observa, inclusive, que aqueles que já não viam necessidade de se vacinar ficaram mais vulneráveis às fake news durante as campanhas iniciais de vacinação contra a covid-19, em 2021, e o problema se estende até hoje.

Desinformação e vacinação infantil

O resultado foi um aumento do discurso antivacina. Nisso, a pediatra analisa que, dentro da histeria construída na campanha de vacinação contra a covid-19, os efeitos colaterais são colocados acima dos benefícios e as pessoas "ficaram completamente descrentes e preocupadas em se vacinar, elas levavam mais em consideração o evento adverso provável do que a doença grave fatal." 

Com isso, os mais afetados pelas campanhas desinformativas acabam sendo as crianças e jovens. Além de serem "ativos dentro do ambiente digital" e facilmente expostos à fake news, de acordo com Nathália, o público infantil também pode ser condicionado por familiares negacionistas. Ela alerta para a existência de grandes comunidades de pais em redes sociais, como o Facebook, que se agrupam "para trocar informações, por exemplo, de contato de médicos que fornecem atestados falsos para burlar a vacinação dos filhos". 

Atualmente, o mesmo acontece com a vacina contra a dengue, por exemplo, sendo um alvo recente de peças desinformativas. No Brasil, constam atualmente dois imunizantes distintos, a Dengvaxia e a Qdenga, esta última distribuída pelo SUS. Nathália alega que, na internet, páginas de influenciadores negacionistas dizem que os imunizantes são organismos geneticamente modificados e capazes de alterar o DNA humano, dentre outras teorias.

"Essas fake news em relação à vacina são muito recicláveis", observa Nathália, e relembra que notícias falsas com o mesmo teor eram comuns durante a chegada da vacina contra a covid-19, em 2021.

Imunização coletiva

O receio em vacinar a si ou aos filhos afeta a imunização coletiva, que desempenha um papel fundamental na proteção da população, em especial recém-nascidos e idosos, contra doenças infecciosas graves. Segundo Jorgete, quanto maior o número de pessoas imunizadas, maior é o controle das doenças, a chamada imunidade de rebanho.

Jorgete Maria e Silva – Foto: FMRP

Assim, a médica destaca a importância de conscientizar a população sobre a relevância da vacinação. Porém, nos últimos anos, o próprio Conselho Federal de Medicina (CFM) vem sendo criticado por posicionamentos polêmicos, inclusive abrindo, em janeiro de 2024, um questionário para saber a opinião de médicos quanto à obrigatoriedade da vacinação contra a covid-19, "para enriquecer o debate e contribuir para a tomada de decisões futuras". 

"Nós, médicos, é que temos essa responsabilidade, devemos informar o paciente de tudo que ele precisa saber, para ele voltar a confiar e a acreditar na vacina", afirma Jorgete, e lamenta que alguns médicos "não assumem esse papel" de acolher pessoas com dúvidas quanto à vacinação e passar as informações corretas.

Cultura de vacinação se perdeu

Desde a instauração do Programa Nacional de Imunizações, em 1973, o País é referência na distribuição pública de vacinas, pela organização de calendário e promoção de campanhas de vacinação, com índices de imunização altos e estáveis entre 1998 e 2012, ano em que começa a tendência de queda, que atingiu o ponto mais baixo no triênio de 2019 a 2021, segundo dados do próprio PNI. Ainda assim, o programa conseguiu eliminar a circulação do vírus do sarampo, por exemplo, em 2016. 

Mas a condição não durou muito – novos casos da doença começaram a aparecer em 2018 e a população enfrentou um novo surto no ano seguinte, com o Estado de São Paulo registrando cerca de 18 mil casos, segundo relatório do Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde. 

Um dos motivos, para Nathália, envolve a mudança na cultura de consumo de mídia – enquanto anteriormente o público apenas recebia as informações de grandes institutos de pesquisa e de saúde, através dos veículos de informação, hoje "tem uma comunicação em forma de rede, em que as pessoas passam desse lugar de receptor para, também, de emissor". 

Dessa forma, apesar do reinvestimento em políticas de incentivo à vacinação em 2023, como o Zé Gotinha, famoso mascote das campanhas brasileiras, o conhecimento científico disputa com a desinformação nas redes e, para a pesquisadora do União Pró-Vacina, o cenário exige que as campanhas de conscientização sejam mais dinâmicas e interativas. "Não podemos mais só atuar com campanhas de conscientização em que a gente fala e as pessoas aceitam." 

 

(*) Sob supervisão de Ferraz Júnior


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