Opinião

Opinião/coronavírus: O que farei agora que meus dias ficaram livres?

Leia artigo especial de Marcos Fava Neves, professor titular na USP e na FGV e palestrante


Marcos Fava Neves*, especial para o B24h | 15/03/2020 | 09:13


O professor Marcos Fava Neves, titular nas Escolas de Administração da FEARP/USP, em Ribeirão Preto, e da EAESP/FGV | Foto: Divulgação

 

Sexta-feira, 13 de março. Um dos cinco dias mais marcantes da minha vida profissional. De uma agenda lotada, tal como um dominó em alta velocidade seguiram-se os anúncios públicos, os e-mails, mensagens e ligações com pedidos de desculpas justificando os cancelamentos. De repente todos os meus dias ficaram livres.

Motivos perfeitamente entendidos, apesar da dor de ter parte do seu trabalho, daquilo que você mais gosta, removido de você e consequentemente todas as perdas que isto envolve. Alguns ainda se ofereceram para pagar, o que recusei prontamente.

Numa mudança de ambiente que jamais tinha visto na carreira, uma nova norma surgiu. Temos que dar uma parada no Brasil e diminuir drasticamente a velocidade de transmissão, lutarmos todos visando evitar o sufocamento do sistema de saúde e uma perda maior de pessoas nos segmentos mais vulneráveis, aquelas que mais merecem nosso carinho e gratidão, os nossos avós, os nossos tios, os nossos pais.

Pediremos hora a hora para que a luz incida sobre os gestores internacionais e nacionais desta crise visando a tomada de grandes e adequadas decisões e torceremos pelos heroicos profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate, nossos médicos, enfermeiros, residentes, estudantes e todos os times de trabalhadores da área, independentemente de suas formações, que estão se arriscando neste momento em prol do grande objetivo a ser conquistado.

Torceremos hora a hora também para que a produção de alimentos siga firme, que nossos produtores continuem o trabalho que fazem agora enquanto você lê este texto neste domingo, de colher a maior safra da história do Brasil, com mais de 252 milhões de toneladas de grãos que ajudarão a sociedade mundial a contornar esta crise, e que os caminhoneiros sigam dirigindo e transportando, todos também se arriscando. E daremos ainda maior valor ao fato de estarmos, no Brasil, dentro de uma fábrica de comida quando, de diversos lugares do mundo, nos chegam imagens de gôndolas vazias.

Que as nossas Usinas acionem as moendas e sigam firme para iniciar provavelmente a maior safra de cana da nossa história, e não nos deixem faltar combustível e energia. E que todo o processo fabril de outros importantes setores continue, com a preocupação ainda maior de dar enorme segurança às pessoas, para não nos faltar nada nestes tempos diferentes. 

Penso que das crises saltam grandes ideias e ocuparei rapidamente o meu tempo com três grandes blocos: no primeiro, um processo de leitura, reflexão, pensamento e criação de novas soluções. O segundo, estar mais próximos dos de casa, os conhecer, conversar, “entrevistar”, e por mais incrível que possa ser em períodos de isolamento, mais próximo dos amigos, aproveitar para resgatar um verbo que quase desapareceu: “telefonar”.

E o terceiro, de formas criativas pensar ao máximo em como ajudar quem precisa e socorrer os negócios mais sensíveis, analisando os impactos que esta parada forçada está trazendo às outras pessoas. É hora de todos nos ajudarmos. Por exemplo, se você não puder ir aos restaurantes que gosta, peça para eles cozinharem e te entregarem em casa, dê uma gorjeta ainda maior ao entregador. Temos muitas formas criativas de contribuir com os que serão mais atingidos, neste novo formato “confinado”, pensemos em como fazer, será uma experiência diferente.

Sairemos desta muito melhores. O ser humano tem enorme criatividade e um novo coletivismo vai emergir, trazendo novas soluções para a sociedade. É a minha esperança, vamos vencer.

 

(*) Marcos Fava Neves é palestrante e professor titular nas Escolas de Administração da FEARP/USP, em Ribeirão Preto, e da EAESP/FGV

 


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